TIRADENTES – Personagens retratados em documentários pelos próprios familiares, como filhos, sobrinhos e netos, se tornaram uma constante na filmografia brasileira dos últimos dez anos, mas “Pitanga” e “Guarnieri” não se contentam apenas em evitar o esquecimento que muitos artistas são relegados.
Destaques da programação da 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que prossegue na cidade histórica mineira até sábado, os filmes partem do familiar para se chegar ao macro, à importância dos atores Antonio Pitanga e Gianfrancesco Guarnieri para o entendimento de uma geração e de um país.
Neto de Gianfrancesco, ator falecido em 2006, aos 72 anos, Francisco Guarnieri salienta que recorre ao avô para lembrar uma época (anos 1950 e 60, principalmente) em que o fazer artístico estava profundamente ligado ao campo político. “O que proponho é uma reflexão, sobre como a geração seguinte teve dificuldade de aplicar isso”, assinala.
E a comparação justamente com o seu pai, o também ator Paulo Guarnieri, de 55 anos. “Os que vieram estavam mais focados no lado profissional, num certo individualismo”, compara Francisco, que, pertencente à terceira linhagem, vive um dilema. “O filme não aponta uma resolução, mostrando uma crise atual de como repetir o que feito no passado”.
Trabalho comparativo
Paulo Guarnieri, assim como o tio e também ator Flávio (1959-2016), está longe de virar um vilão dessa história. Francisco destaca que o interesse de seu pai, em primeiro lugar, com a estabilidade familiar. “Ele queria ser pai, reflexo do que ele não teve com meu avô, que era amoroso, mas não era sempre que estava com a família”, afirma.
Por conta desse trabalho comparativo entre gerações que Francisco não entrevistou Cláudio, Mariana e Fernando Henrique, filhos da segunda união de Guarnieri, com a socióloga Vanya Sant’anna. Para o diretor, era fundamental criar essa linha vertical e perceber o que o avô pôde “trazer até ele”.
O cineasta, que assinou o roteiro de “Califórnia” e estará em Tiradentes para a exibição de “Guarnieri”, no sábado, observa que essa onda de documentários sobre parentes parte de uma necessidade de olhar para trás e entender “coisas importantes” que ficaram difusas com o tempo.
De filha apaixonada a admiradora
A ficha da atriz Camila Pitanga só caiu durante a realização do filme “Pitanga”, começando como “filha apaixonada” e, depois, se “surpreendendo com o homem que representa a história do Brasil e do próprio cinema”, explicou após a exibição do documentário, numa praça cheia, no final de semana.
Presente à sessão, Antonio Pitanga foi um dos protagonistas do Cinema Novo, trabalhando em filmes importantes do movimento, como “Barravento” (1962), “Os Fuzis” (1964) e “Menino do Engenho” (1965), e se tornou um dos grandes atores de sua geração, ao lado de Milton Gonçalves e Zezé Motta.
“São tantos os signos que esse homem evoca. É um ato cívico ter entrado para essa família. Pitanga não é um personagem; foi a vida que o cunhou”, sintetiza o diretor de arte Charlô, colaborador também do roteiro. Beto Brant, que dirige o filme ao lado de Camila e maior incentivador do projeto, não pôde vir à Tiradentes.
“O que dizer de um baiano que conhece o Brasil desde a primeira metade do século passado? Nasci durante o início da Segunda Guerra e a transformação da civilização foi se materializando. Tudo isso foi cunhando e sangrando o nosso corpo. Poderia ser um plantador de gente. Sou apaixonado por gente”, salienta o biografado.
Ao ver o Largo das Fôrras lotado, Pitanga, de 77 anos, citou Castro Alves, dizendo que “a praça está para o povo como o céu está para o condor”. E ganhou aplausos ao concluir que “a praça é o lugar onde se consagra a matéria humana”.
Homenagem em vida
O ator confessa que, no início, ficou desconfortável com a ideia de filme sobre ele. “Eu respondi não. Tremi na hora, porque não morri. Culturalmente, homenagens como essa acontecem depois de morrer e achava que iriam abrir a caixa de Pandora”, lembra.
O caminho trilhado por Camila e Beto deixou o ator menos aflito, ao se debruçar sobre encontros com amigos e colegas de filmes. “O que o filme evoca é a necessidade de conhecer nossos valores, nossas raízes. Evoca um estado de saúde, de amor e de sabedoria, que esse homem soube botar para fora. Ele personifica o discurso do oprimido, da luta, da resistência. A história do homem se mistura a dos personagens”, sublinha Camila.
* O repórter viajou a convite da organização da Mostra de Cinema de Tiradentes