
Há seis anos, quando soube de uma audição para uma nova orquestra que estava sendo formada no Brasil, o violinista sérvio Luka Milanovic correu para a internet para saber mais sobre Belo Horizonte. No Google, encontrou fotos que indicavam um complexo urbano bem diferente da sua Belgrado. “Na minha primeira pesquisa, vi que era uma cidade muito grande. Uma foto mostrava um mar de morros e prédios e me assustou um pouco o tamanho”, conta o instrumentista, que topou o desafio de vir morar no Brasil e colaborar para a construção da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais.
O impacto visual das fotos é só o primeiro choque cultural vivenciado pelos vários estrangeiros que formam essa que se tornou rapidamente uma das orquestras mais importantes do país, sob o comando do maestro Fabio Mechetti. Hoje, um terço dos 90 integrantes da Filarmônica é formado por estrangeiros, mas esse número é ainda maior, porque os dados oficiais não levam em conta alguns instrumentistas já naturalizados como brasileiros.
“As minhas duas primeiras semanas em Belo Horizonte foram as mais longas da minha vida”, confessa Milanovic, que veio ao Brasil pensando em ficar dois anos e agora não pensa mais em voltar para a Sérvia. “Havia muita coisa nova para aprender, uma experiência com intensa densidade. Mas tive sorte. Quando cheguei, a orquestra tinha mais dez músicos da Sérvia e tínhamos um círculo de amigos que compartilhavam as experiências”.
Entre os amigos de Milanovic que passaram pela audição realizada por Mechetti em Belgrado está a violinista Marija Mihajlovic. Ela ganhou uma família mineira após se casar com um montes-clarense e já tomou gosto pelos passeios feitos no interior de Minas, para desfrutar da natureza e das cachoeiras. “No início, foi difícil lidar com o idioma desconhecido e a distância com a Sérvia. Mas duas coisas que me ajudaram muito foram o clima agradável da cidade e a receptividade do povo mineiro, de algum modo muito parecida com a dos sérvios”, diz a violinista.
Antes de vir para o Brasil, Marija já tinha passado pela Orquestra Filarmônica de Belgrado, onde atuou por três anos, e consegue enxergar com maior clareza a diversidade cultural que existe dentro da Filarmônica de Minas. “Na Sérvia, todos os integrantes da orquestra eram da mesma nacionalidade, vieram da mesma origem musical. Aqui é muito diferente, pois há pessoas de qualquer lado do mundo”.
Lazer
Qual é o principal diferencial de Belo Horizonte? “Aqui tem muito mais bares”, brinca o contrabaixista norte-americano Colin Chatfield, que entrou para a Filarmônica de Minas há três anos, depois de passar pelas orquestras de Rochester, Filadélfia e Washington. Ele aprovou a maneira com que os belo-horizontinos aproveitam seus momentos de lazer.
“Aqui há muitos bons restaurantes e adoro sentar do lado de fora dos lugares, algo que não é muito comum nos Estados Unidos”, afirma o contrabaixista, que também gosta de passear pelas regiões verdes da cidade, como o Parque Municipal e o Parque das Mangabeiras.
Incômodo para eles acontece apenas quando os festejos futebolísticos invadem a paz de suas casas – em especial as conquistas de Cruzeiro e Atlético em 2013. “Não entendo porque há 48 horas de foguetes e bombas depois que um time vence. Nos Estados Unidos, a festa é mais concentrada nos bares e clubes esportivos e as pessoas tocam a buzina por duas ou três horas”, diz Colin Chatfield. “Foi muito difícil estudar com todo aquele barulho. Ainda não entendi o fanatismo por futebol”, afirma Marija Mihajlovic.
Um novo lar, doce lar
Aos poucos, os estrangeiros da Filarmônica vão criando vínculos com Belo Horizonte que vão além da música e da carteira assinada. Muitos constituíram família aqui. É o caso da violoncelista norte-americana Elise Pittenger, que veio para a capital mineira não apenas pela orquestra, mas porque se apaixonou por um músico da cidade. A Filarmônica foi uma feliz coincidência.
O norte-americano Colin Chatfield tem o Parque Municipal como um dos lugares favoritos da capital (Foto: Eugênio Moraes/Hoje em Dia)
Com uma filha mineirinha de 13 meses, agora ela tem percebido com maior clareza a maneira diferente com que os brasileiros tratam os desconhecidos. “Nos Estados Unidos, as pessoas apreciam as crianças de longe, nunca tocariam numa criança que não conhecessem. Aqui, todo mundo coloca a mão na minha filha, vem conversar com ela e oferece comida. No geral, gosto, porque ela é uma criança mais sociável, mas às vezes estranho um pouco”, conta Elise.
Morando há três anos em Belo Horizonte, Elise já percebeu uma grande transformação na dinâmica urbanística da capital. As construções presentes em todos os cantos lhe impressionam. “Acredito que a cidade tem crescido sem muito cuidado. Quando cheguei, fui morar na Pampulha, onde era bem tranquilo. Mas agora a região está virando uma bagunça de prédios”, avalia.
Diálogo
Além dos vínculos afetivos, os estrangeiros estão estabelecendo diferentes formas de trabalho e relação produtiva com a classe artística local. Alguns dão aulas e outros estabelecem parcerias com artistas mineiros – como é o caso de Luka Milanovic.
Hoje o violinista dialoga com os músicos populares da capital. Desde que começou a tocar com o violonista mineiro André Rocha, passou a conhecer melhor a cena alternativa. “Vejo shows de jovens e talentosos músicos que amam o que fazem e se esforçam mais pela música do que pelo retorno financeiro. Tenho ouvido alguns discos e estou gostando muito do que tem sido feito. Uma criatividade que vale a pena ser ouvida”.
Circular por ambientes nos quais a música é a protagonista é algo inevitável. O universo da composição e execução é um dos fatores que une o heterogêneo grupo de quase uma centena de pessoas. “Somos muito amigos dentro da orquestra. Essa proximidade é inevitável, porque não temos uma agenda normal. A orquestra trabalha muitas vezes aos finais de semana, quando a maioria das pessoas está de folga”, afirma Colin Chatfield.
A expectativa pela sala de concerto própria, que está sendo construída no Barro Preto, deixa os músicos ainda mais animados sobre a rotina em Belo Horizonte. Assim que estiver pronta (há uma promessa para que os concertos comecem lá em 2015), os integrantes da orquestra terão uma agenda mais ritmada, com concertos e folgas determinados nos mesmos dias da semana – atualmente, as folgas variam de semana para semana.
Audições
No início da formação da orquestra, Fabio Mechetti viajava para os países mais tradicionais da música erudita e realizava audições. Com o passar do tempo, a orquestra foi ganhando prestígio e, desde 2011, os certames são realizados em Minas Gerais. “Hoje, músicos de fora do Brasil vêm fazer a audição em Belo Horizonte. E trazem seus próprios instrumentos, mesmo os maiores. Até contrabaixista já veio para a audição”, conta o maestro Fabio Mechetti.
A busca por instrumentistas internacionais nos primeiros anos aconteceu por necessidade. “É difícil encontrar brasileiros com experiência em determinados instrumentos. Vamos fazer audições para trompete e trombone e sei que ouviremos bons brasileiros, mas não acontece o mesmo com todos os instrumentos”, explica o maestro. “No Brasil, é difícil encontrar profissionais que tiveram a oportunidade de exercer o trabalho sinfônico. Por isso, muitos de nossos integrantes brasileiros estudaram no exterior”.
Confira quem são os 30 estrangeiros
Elise Pittenger, Estados Unidos (violoncelo)
Lina Radovanovic, Croácia (violoncelo)
Roberto Papi, Itália (viola)
Gerry Varona, Filipinas (viola)
Nathan Medina, Estados Unidos ( viola)
Katarzyna Druzd, Polônia (viola)
Colin Chatfield, Estados Unidos (contrabaixo)
Pablo Guíñez, Chile (contrabaixo)
William Brichetto, Estados Unidos (contrabaixo)
Catherine Carignan, Canadá (fagote)
Andrew Huntriss, Escócia (fagote)
Alma Maria Liebrecht, Estados Unidos (trompa)
Mark John Mulley, Inglaterra (trombone)
Patricio Hernández Pradenas, Chile (tímpano)
Elena Suchkova, Rússia (flauta)
Ayumi Shigeta, Japão (teclado)
Giselle Boeters, Holanda (harpa)
Anthony Flint, Inglaterra (violino)
Ana Zivkovic, Sérvia (violino)
Bojana Pantovic, Sérvia (violino)
Hyu-Kyung Jung, Coreia do Sul (violino)
Frank Haemmer, Alemanha (violino)
Leonidas Cáceres, Colômbia (violino)
Jovana Trifunovic, Sérvia (violino)
Luka Milanovic, Sérvia (violino)
Marija Mihajlovic, Sérvia (violino)
Radmila Bocev, Sérvia (violino)
Megumi Tokosumi, Japão (violino)
Eneko Aizpurua Pablo, Espanha (violoncelo)
Matthew Ryan-Kelzenberg, Estados Unidos (violoncelo)