
Lenda viva do fértil cenário do rock britânico, Morrissey está de volta ao mercado fonográfico (via Universal) com um disco cujo nome já acende a centelha da curiosidade: “World Peace is None of Your Business” (“A Paz Mundial Não é da Sua Conta”). O título refere-se à faixa que abre os trabalhos do petardo, e cuja letra, pincelada de ironia, cita o Brasil, ao lado da Ucrânia, Bahrein e Egito. “So many people in pain”, diz, na sequência.
Produzido por Joe Chiccarelli (leia-se Strokes, Alanis Morissette e uma pá de gente respeitada), e gravado na França (La Fabrique), o petardo agrupa outras 11 faixas que (fácil, fácil) vão cooptar mais uma vez os fãs do ex-Smiths (e olha que já se passaram 30 anos!).
Em meio a elas, é possível destacar, por exemplo, as ideias interessantes que pautam “I’m not a Man”, no qual mais uma vez o jovem senhor de 55 anos, a bordo de seu singular topete e os penetrantes olhos azuis, faz ecoar suas ideias ao, depois de citar arquétipos do homem sedutor (Casanova, Don Juan) e lançar seu olhar de desprezo aos representantes do chamado sexo forte que tratam suas parceiras à base da violência – além de inserir um inusitado “câncer de próstata” na letra – aproveita para lembrar que nunca matou ou ingeriu um animal. “E tampouco destruiria o planeta onde moro/ Bem, o que você acha que eu sou? Um homem?”, lança.
Os direitos dos animais, aliás, voltam a aparecer logo ali na frente, em “The Bullfighter Dies” (“O Toureiro Morre”), que, pelo título já se deduz, aponta o que seria um revertério no de fato degradante espetáculo que ainda hoje atrai um público considerável às arenas. À organização não governamental Peta (People for the Ethical Treatment of Animals), Morrissey explica que se sentiu instado a escrever a canção ao se dar conta de que “aqueles que controlam tal barbaridade não têm interesse algum no bem-estar do touro”. Bravo, Morrissey!
E por falar em Peta, um parêntesis: a platinada atriz Pamela Anderson, outra ferrenha defensora da causa animal, aparece ao lado de Morrissey em alguns dos vídeos que ele próprio tratou de postar na web para pulverizar pensamentos e canções.
Até agora, já deu para sentir que os politicamente incorretos vão correr deste disco. Mas tem mais. A louvável preocupação de Steven Patrick Morrissey, ou simplesmente “Moz”, com o planeta está também impressa em “Earth is the Loneliest Planet”. “And humans are not really very humane” (em tradução livre: “e os humanos não são realmente muito humanos”). Bravo, again.
O movimento beat norteia “Neal Cassady Drops Dead”, enquanto “Istanbul” recria o clima da cidade turca. A perturbadora “Smiler with knife” acrescenta boas pitadas de desesperança ao disco, seu décimo na carreira solo, e que sucede o igualmente elogiado “Years of Refusal”, de 2009.