
Sentado no meio de sua sala, com um copo de uísque na mão, cabelos longos, lisos e grisalhos, lá estava ele, rodeado por amigos que adoravam rir de suas piadas, cantar seus poemas, ouvir suas histórias de amor e tocar as músicas que eram feitas com suas letras. Amigos que sabiam que sem ele aquela comunhão não seria possível. Vinicius de Moraes chamava a todos por diminutivos, como prova de seu imenso carinho.
O “poetinha”, como ficou conhecido entre os mais íntimos, e depois o Brasil inteiro, por conta dessa carinhosa mania, terá o centenário celebrado em 2013, mas as comemorações já começaram. Na capital, uma exposição na Galeria Murilo Castro, idealizada pelo filho do compositor, poeta e diplomata, Pedro de Moraes, fica em cartaz até o dia 21 de dezembro.
Intitulada "Os amigos do meu pai", a exposição abre ao público um pouco da intimidade de Vinicius, através das lentes do filho, ao mostrá-lo ao lado de grandes e célebres 'compadres', como Chico Buarque, Caetano Veloso, Pixinguinha, Baden Powell, Nara Leão, Maria Bethânia, Ismael Silva, Cartola, e outros.
A inspiração surgiu primeiro em razão da profissão de Pedro, que é fotógrafo, e depois em virtude do espírito gregário do poeta, famoso por manter a casa aberta e receber inúmeros convidados em confraternizações responsáveis por determinar os rumos da bossa nova, os afro-sambas, e no início da década de 50, o samba-canção.
Casa aberta
Numa noite como todas as outras, em que a fechadura encontrava-se destrancada, Vinicius se deparou com um inusitado "visitante". "Meu pai entrou em casa e tinha um ladrão, muito nervoso". Pedro conta que Vinicius tratou de acalmar a visita inconveniente, ofereceu-lhe uísque, e os dois ficaram bebendo até a madrugada, quando o autor de "Soneto de Fidelidade" pagou um táxi para o ladrão ir embora.
Casos como esse, lendários ou não, são recorrentes na biografia de Vinicius, cunhador de frases como "ladrão também tem família" e "o uísque é o melhor amigo do homem, é o cachorro engarrafado". Sobre esta, Pedro confessa que gerava certos problemas familiares. "Nunca gostei de uísque, prefiro cachaça. Meu pai me xingava por isso, dizia que me dava mesada pra comprar bebida boa!", esbalda-se em sonoras risadas.
Mônica Salmaso e Juarez Moreira cantam Vinicius
Mônica Salmaso e Juarez Moreira apresentam no palco do Sesc Palladium, na próxima segunda-feira, dia 26, dentro do projeto Compositores.BR, um olhar acerca da vasta obra musical deixada por Vinicius de Moraes.
O violonista Juarez Moreira, que conheceu pessoalmente Vinicius, através de Milton Nascimento, conta que ele era "boa praça, e muito coerente em relação à música que fazia, dificilmente percebe-se essa sintonia tão forte entre pessoa e obra", afirma.
O músico, que apresentará uma leitura instrumental do repertório do poeta, ressalta o lado "melodista, pouco conhecido" do poetinha. "Ele é, ao lado de Tom Jobim, a melhor referência musical que conheço. Quanto mais velho, mais me encanto com Vinicius", atesta.
"Alma Lírica"
Atualmente divulgando o mais recente álbum, "Alma Lírica", Mônica Salmaso considera que o fato de ter gravado, ao longo de toda a carreira, muitas composições de Vinicius, tornou-se um dificultador. "A produção nos solicitou um repertório exclusivo, então tive que deixar de lado, um pouco, as parcerias do Vinicius com o Baden Powell e Tom, para ir atrás do que ele compôs com Ary Barroso, Ernesto Nazareth, Edu Lobo, Carlos Lyra e Francis Hime", confirma.
A identificação de Mônica com a obra de Vinicius de Moraes é nítida não apenas pela forma 'cool' de cantar, como denota Juarez Moreira, que dividirá o palco com a intérprete em cinco números, mas em vista do extenso número de composições gravadas. A cantora, vale lembrar, participou do documentário “Vinicius”, em 2005.
Mas não foi sempre assim, Mônica relembra: "Quando era criança, meus pais punham um disco dele para tocar, onde ele declamava um poema que tinha o verso 'há um vampiro pelas ruas, porque hoje é sábado'. Eu morria de medo e saía correndo!", relata entre risadas.
O referido poema era 'Dia da Criação'. Anos mais tarde, Mônica começou a mudar de opinião, quando Vinicius lançou uma peça mais adequada ao universo infantil, 'A Arca de Noé'. "Desde então minha paixão por Vinicius só aumentou, não o larguei mais". Pois então chega de saudade, celebremos juntos, ao sabor de Vinicius, todo esse tempo em que o amor teve menos uísque mas não menos poesia.
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