TIRADENTES - “Mas louco é quem me diz/E não é feliz, não é feliz”. Essa estrofe de “Balada do Louco” fechou a conversa de Ney Matogrosso com o público que lotou o lounge do Cine-Tenda, na noite de segunda (23), para ver de perto o cantor e protagonista do filme “Ralé”, um dos destaques da 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Após ser indagado pelo mediador do bate-papo qual seria a música ideal para definir Helena Ignez - diretora de “Ralé” e uma das homenageadas do festival - e escolher “Balada do Louco”, uma das suas músicas de maior sucesso, Ney não cedeu aos pedidos da plateia, cantando apenas um trechinho dela.
O Ney que estava ali, na verdade, era o ator, vertente que vem se dedicando cada vez mais. “Ney é uma figura emblemática de amor, de energia extraordinária e um grande irmão espiritual”, elogiou Helena, com quem já tinha feito “Luz nas Trevas: A Volta do Bandido da Luz Vermelha”, lançado em 2010.
Ney lembra que não queria fazer um remake do filme “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), de Rogério Sganzerla, que foi casado com Helena. “Deu-me um certo nervoso. Não tinha entendido antes e fiquei receoso. Uma continuação é outra história”, relatou o artista sul-mato-grossense de 75 anos.
Apesar da carreira dedicada à música, inicialmente com o grupo Secos & Molhados, Ney queria ser ator. “Foi a vida que me levou à música”, sublinhou. Uma pessoa da plateia destacou o preparo físico e o corpo maleável do artista, mas Ney explicou que “mostra (o corpo) como se fosse para as pessoas acreditarem, e elas acreditam”.
Fã de cinema italiano, especialmente dos filmes de Pier Paolo Pasolini e Vittorio de Sica, também foi formado pelas chanchadas, “manifestação 100% brasileira”. Não poupou louros à Helena Ignez, “que tem uma forma revolucionária de se pôr”. E emendou: “Tudo que ela pede eu faço, por mais louco que possa parecer. Sei que não vai me expor gratuitamente”.
A conversa também abarcou temas fora do cinema, como a crescente onda de preconceito. “Sou a favor de tudo. Preconceito é atraso mortal, é infantilismo. Não adianta governo, não adianta igrejas. (A luta contra o preconceito) vai passar por tudo isso e proliferar. Confio na nova geração”, analisou Matogrosso.
(*) O repórter viajou a convite da organização da Mostra de Cinema de Tiradentes