
O filme de 1959 é até hoje o maior ganhador de Oscars, com 11 estatuetas, considerado um dos maiores épicos já feitos no cinema, mas a premissa atual de Hollywood em promover “atualizações” levou a uma inevitável retomada da história de “Ben-Hur”, motivada também pela recente onda de produções religiosas com bons resultados de bilheteria (“Noé e “Êxodo: Deuses e Reis”).
Os realizadores sabiam que dificilmente conseguiriam superar um trabalho tão impressionante, dirigido por William Wyler, e deixaram claro que o viés seria bem outro, baseado na ação, ao optaram pelo cazaque Timur Bekmambetov, e numa trama mais enxuta, mais próxima aos elementos religiosos que resultariam na dobradinha violência e emoção, a catarse alcançada pela dor e pelo alívio.
O jogo com o espectador se dá desta forma: primeiramente, duas horas de violência extrema, de retirada de toda a dignidade de uma pessoa comum, mais emblemática por ter Ben-Hur uma origem nobre, perfazendo uma leitura elitista sobre continuidade de linhagens – o protagonista pensa diferente de outros escravizados pelo Império Romano por sua educação refinada, com conhecimentos diversos.
Ele só se salva, em duas oportunidades, por ter acesso a essas habilidades, reforçadas no contraste com os demais escravos, mostrados como semivivos – abordagem feita por Timur no fantasioso “Guardiões da Noite” (2004), que tinha bruxas, vampiros e seres metamórficos em seu enredo. Alguém tão sagaz só surge na forma de outro príncipe, um africano, que se une a Ben-Hur no desejo de vingança.
Depois que ele é consumado, na famosa sequência de bigas, a trama imediatamente estabelece a ideia de perdão. O vencedor ofereceria outro “castigo”, que é não alimentar mais nenhum ódio pelo inimigo. E isso só acontece quando Ben-Hur é despertado pelo sofrimento de Jesus, ao ser crucificado para salvar todos nós. Herói na arena, ele também triunfa moralmente ao receber seu meio-irmão, um ex-capitão romano.
Da violência extrema à sublime bondade, o que falta é justamente esses tons de cinza que vão de uma ponta à outra, o que faz do roteiro algo superficial, quase novelesco, a ponto de os críticos o compararem ao brasileiro “Dez Mandamentos”. Essa estética não está apenas na falta de profundidade, mas também em sua linguagem: os momentos em que não há a predominância da ação, com o embate verbal, são constrangedores.
Uso constante de plano e contraplano, a busca de uma expressividade nos rostos que finalize uma cena, trilha sonora redundante e um texto que não confia na capacidade do diretor em preencher os silêncios com força dramatúrgica. Os atores são mal conduzidos, destoando uns dos outros. Morgan Freeman segue em piloto automático e Rodrigo Santoro exibe um didático Jesus Cristo.
No final das contas, “Ben-Hur” só parece se justificar pela corrida de bigas, mais impactante por conta da tecnologia de hoje. Também há uma ótima cena de ação no mar, quando um confronto entre romanos e gregos é acompanhado pela ótica dos remadores das galés. Em outros quesitos, porém, Timur não é Ridley Scott ou Darren Aronofsky, diretores de “Êxodo” e “Noé”, cujas qualidades extrapolam os efeitos especiais.