
A cena em que o capitão Kirk do seriado “Jornada nas Estrelas” aparece num televisor antigo, enquanto Wolverine tenta recrutar seus parceiros mutantes no passado (mais precisamente em 1973), não surge por acaso em “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido”, principal estreia desta quinta-feira (22) nos cinemas.
Uma das motivações diz respeito ao tema central do filme, envolvendo viagens no tempo e mudanças no curso da História devido a acontecimentos futuros que colocarão em risco a sobrevivência na Terra.eitmotiv que amarra a história do melhor longa-metragem baseado na série de ficção-científica: “Jornada nas Estrelas IV – A Volta para Casa”.
Por trás desses retorno temporal, existe uma preocupação sócio-política, abordando questões maiores que não afetam apenas os protagonistas. Em “Jornada nas Estrelas”, é a ecologia. Já “X-Men” levanta a bandeira da tolerância entre os povos, refletindo sobre guerras infindáveis como entre Israel e Palestina, nações movidas pela vingança.
Outra aproximação com “Jornada nas Estrelas” é a passagem de bastão, que, coincidentemente, tem o ator Patrick Stewart participando da troca de equipe nas duas franquias. Em “Jornada nas Estrelas: A Nova Geração”, Stewart surge como o novo comandante da nave Enterprise no lugar de Kirk, numa história em que ambos dividem a cena.
É o que também acontece no filme dos heróis da Marvel, com o ator invertendo os papéis, mas num caminho inverso. À medida que a série avança para a história da criação dos mutantes, o seu Professor Xavier assume outro rosto – o de James McAvoy. Assim, a brincadeira com a série da década de 60 toma forma de homenagem ao ator britânico de 73 anos.
Não é a única referência, já que a produção dirigida por Bryan Singer remete a várias outros marcos da ficção-científica, entre eles “O Exterminador do Futuro” - o domínio, no futuro, das “máquinas” que obriga os protagonistas a retornarem no tempo. Além de uma distopia caracterizada pelo autoritarismo e pelo desejo de controle, mote de boa parte desses filmes.
É exatamente nessa última parte que “Dias de um Futuro Esquecido” deixa muito a desejar, ao oferecer uma explicação deturpada para os grandes erros da humanidade. Se no filme anterior (“Primeira Classe”) os mutantes estão no centro da crise dos mísseis em Cuba, em 1962, agora até o assassinato do presidente John Kennedy tem o dedo deles.
Esse “ajuste” histórico vem ocorrendo em grande número no cinema, como “Transformers 3 – O Lado Oculto da Lua”, em que a corrida espacial das décadas de 1950 e 1960 é manipulada por carros-alienígenas, e “Abraham Lincoln – Caçador de Vampiros”, com a mortandade vista na Guerra Civil justificada pelos sanguessugas.
A bandeira da tolerância é mal aproveitada ao fazer dos humanos apenas marionetes de seres sobrenaturais, como se depositasse todos os desvios naquilo que é desconhecido. Enfatizado numa narrativa “novelesca”, recheada de closes em rostos preocupados e tristes dos personagens a cada sequência do filme. Só falta a introdução da propaganda de margarina entre elas.