
Quando soube que haveria uma celebração entre presos de vários pavilhões no pátio da Casa de Detenção de São Paulo, o diretor Eduardo Escorel subiu para uma das torres onde ficavam os agentes de vigilância e pediu para o ator Nuno Leal Maia ir para o meio da aglomeração, onde estavam autores dos crimes mais diversos.
“Foi um dos momentos mais brabos da filmagem. Não havia policial lá dentro e tive que me juntar aos presidiários, que me conheciam de filmes da pornochanchada. Eles fizeram uma corrente e todo aquele sofrimento passou para mim. À noite, já no hotel, tive uma crise de choro de duas horas. Não conseguia controlar”, lembra o ator.
Experiência difícil e marcante que será relembrada hoje, às 20h, no Cine Humberto Mauro, quando “Ato de Violência” será exibido na abertura do projeto “Curta Circuito”, em sua 17ª edição, com a presença de Maia e de Escorel. Lançado em 1980, o filme faz parte de uma seleção de longas-metragens que abordam a violência em diferentes níveis.
Para o ator, hoje com 70 anos, viver Chico Picadinho no filme foi importante para lhe dar a “cancha” dramática, comprovada depois com o prêmio “Air France” de melhor ator. Até então ele tinha se dedicado principalmente à pornochanchada e dramas em que o sexo também é protagonista, como “A Dama do Lotação”, um dos grandes sucessos do cinema brasileiro.
Chico Picadinho é baseado num caso real ocorrido nas décadas de 60 e 70, em que um homem esquartejou uma bailarina austríaca, foi preso e depois liberado por bom comportamento. Solto, praticou o mesmo crime, desta vez com uma prostituta. O caso serviu de exemplo para os erros cometidos pelos peritos forenses, que não conseguiram perceber que ele era incapaz de gerir seus próprios atos.
Se na TV Nuno é lembrado pelos papéis de esportista e bom pai, em novelas como “Vereda Tropical” e “A Gata Comeu”, no cinema ele se transformou num ícone no anos 70, trabalhando principalmente na Boca do Lixo (região do centro de São Paulo onde as estavam as produtoras de cinema independente). Sem fazer um novo longa desde 2013, quando participou de “Tainá – A Origem”, ele vê na produção atual a falta de atores com carisma, citando apenas Wagner Moura e Alexandre Nero como nomes que sabem segurar a atenção da plateia.
Com Christiane Torloni, fez um de seus papéis mais marcantes na TV, na novela “A Gata Comeu”, exibida em 1985Há quanto tempo você não revê “Ato de Violência”?
Não é um filme muito fácil de se ver, pois não passa em lugar nenhum. Mas é um dos trabalhos mais interessantes que eu fiz. Com “Ato de Violência” ganhei o meu primeiro prêmio de cinema, o “Air France”, em 1981. Ele continua bastante atual, ao mostrar uma Justiça que não evoluiu. Até hoje permanece parada no tempo.
Você chegou a conhecer o Chico Picadinho, assassino que esquartejou duas mulheres nos anos 60 e 70 e que serve de inspiração para seu personagem?
Na época das filmagens, eu fui muito à Casa de Detenção em São Paulo onde ele estava e ficava observando-o, sem que ele soubesse de nada. Foi um trabalho feito em conjunto entre eu e o Eduardo (Escorel), até que eu entendesse o que ele queria, buscando uma interpretação mais introspectiva, mais sensível possível.
Naquela época, você vinha de algumas pornochanchadas, como “Bem Dotado, o Homem de Itu” (1979), além da adaptação de “A Dama do Lotação” (1978), de Nelson Rodrigues...
Fiz um pouco de tudo, entre eles as comédias eróticas, com mulher pelada, que o público gostava, porque era algo meio proibido na época. Fui obrigado a aceitar fazer esses filmes na Boca do Lixo, porque era o jeito de começar a fazer cinema. Alguns desses filmes eram ótimas comédias, como “O Homem de Itu”, que era uma brincadeira com os dotes de Anselmo Duarte (galã da Chanchada e diretor de “O Pagador de Promessas”), que era de uma cidade do lado de Itu, Salto. Comédia é bom porque dá a possibilidade de o ator exercitar, principalmente, o lado mais histriônico. Com o Escorel foi algo totalmente diferente, mais contido e sofrido. Exigiu muita concentração. Eu costumo brincar muito no set, mas naquele era tudo muito silencioso. Não dava para fazer piada.
E como foi filmar boa parte das cenas dentro de um presídio em atividade?
Me deu muita cancha, muita bagagem. Entrava às 5 da manhã e saia às 7 da noite. Ficava junto com os presos, não tinha policial lá dentro... Foi complicado filmar... Passei por alguns momentos brabos. Num dia que fizeram uma celebração entre eles, o Eduardo me pediu para ir para o meio deles, enquanto ele subiu para uma dessas torres de vigilância, filmando tudo lá de cima. Eles me conheciam, pois tinham visto na penitenciária o “Dama do Lotação” e “O Homem de Itu”. Em um determinado momento, eles fizeram uma corrente e todo aquele sofrimento passou para mim. Ali é um ambiente triste, amargo. Toda aquela energia passa para você. À noite, quando cheguei ao hotel, eu desabei e tive uma crise de choro por duas horas. Não sabia como controlar.
Depois de “Ato de Violência”, você trabalharia em outros dramas de diretores tarimbados, como Paulo César Saraceni (“Ao Sul do Meu Corpo”), Hector Babenco (“O Beijo da Mulher-Aranha”) e Walter Hugo Khouri (“As Feras”).
Trabalhei com diretores e atores muito interessantes. Em “Gabriela, Cravo e Canela”, tive a oportunidade trabalhar com o (Marcello) Mastroianni. Fiquei muito com ele, conversávamos muito. O papel era pequeno, mas tive a sorte de trocar ideia com alguém que admirava.
Depois você começou a se voltar mais para as telenovelas, não é verdade?
Cheguei a fazer novela e filme ao mesmo tempo. Trabalhava muito. Em “O Rei do Rio”, do Fábio Barreto, eu estava gravando a novela “Vereda Tropical”. Às vezes você trabalha uma noite inteira e tem que estar no set para gravar ao meio-dia. Mas era jovem naquele tempo e jovem topa qualquer parada. O melhor é fazer uma coisa de cada vez.
No cinema, as suas participações foram diminuindo – depois de “As Feras”, lançado em 1995, você fez apenas três longas-metragens.
Hoje é mais (importante) série de TV. O cinema está meio em baixa no Brasil. Acaba sendo uma cópia da televisão. Gravei uma série para a Disney chamada “Juacas”, feita toda na Bahia. Farei outra agora, “Chuteiras Pretas”, sobre futebol.
O futebol, aliás, sempre foi outra paixão sua. Depois de treinar na base do Santos, quando jovem, você chegou ser técnicos de alguns clubes, como Matsubara e Botafogo-PB.
Já fui mais apaixonado. Hoje vejo alguns jogos da Libertadores na TV, que é mais pegado, disputado. Agora, ver Campeonato Mineiro, Carioca... Até que vi um jogo do Santos outro dia, para ver o trabalho que o (técnico) Jair Ventura está fazendo lá.
E cinema? Continua a frequentar salas de exibição?
Vejo na TV. Gosto de cinema francês. Os filmes são muito bons. Não há nada que me motiva a ir ao cinema hoje em dia. Os filmes de Oscar não fazem a minha cabeça. Gosto de filme à moda antiga, clássico. O que é muito raro de se ver no cinema brasileiro. Gostei de “Tropa de Elite”, que prende bem e é muito dinâmico. Vi que começaram a passar na TV um filme sobre a polícia federal... Não consigo ver uma coisa dessa. Para fazer um bom filme você precisa, primeiramente, ter um ator que prenda o espectador. Um Gerárd Depardieu, um Jean Gabin... O Wagner Moura é bom. Em outros tempos, gostava do Oscarito, do Anselmo Duarte. Atualmente, não sei, tem esse Alexandre Nero. Não vi o filme dele, em que faz o maestro João Carlos Martins, mas no trailer ele está bem. Um bom ator de cinema tem que saber olhar para a câmera, segurar a plateia... Estava vendo outro dia na TV um filme do (Arnold) Schwarzenegger. Ele pode ser canastrão, mas tem carisma. Em ator brasileiro, é difícil encontrar isso. O Wagner tem, com exceção daqueles filmes que ele fala com jeito abaianado.
Você nunca pensou em dirigir?
É muito complicado porque você precisa ter uma equipe com sensibilidade, como um diretor de produção, um diretor de arte, um montador. Hoje é difícil encontrar. Pode ser até que tenha, mas, em geral, você é quem tem que fazer tudo. É igual time de futebol. Para ganhar, tem que contar com jogadores legais, habilidosos. Recentemente um amigo meu da Boca me chamou para atuar num curta-metragem. Ele pôs em frente a uma parede vazia. Falei com ele como se fosse um diretor de arte, dizendo para preencher aquele espaço. É uma coisa demorada mesmo. Imagine como deve ter sido para (Luchino) Visconti filmar “O Leopardo”? Quantas pessoas deveriam estar atrás dele? Outro dia estava vendo dois filmes americanos ao mesmo tempo na TV e um deles era um faroeste. Você precisava ver o interior da cabana de um índio, cheia de detalhes. Não é fácil. Assim como não é fácil exibir um filme. Se não tiver a coprodução da TV Globo, não consegue. Ela acaba monopolizando o mercado.
Serviço: Exibição do filme “Ato de Violência”. Hoje, às 20h, no Cine Humberto Mauro do Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1537 – Centro). Entrada franca.
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