O ator Alexandre Borges e o pianista João Vasco trazem a BH novo espetáculo

Patrícia Cassese - Hoje em Dia
Publicado em 13/10/2014 às 08:18.Atualizado em 18/11/2021 às 04:35.
 (Hugo Moura)
(Hugo Moura)

Alexandre Borges contabilizava apenas 20 e poucos anos quando resolveu arrumar as malas e se mudar para o Porto, com o nobre intuito de fazer teatro. E foi em terras lusitanas que ganhou um livro cujo conteúdo ficou tatuado em sua mente: poesias de um dos heterônimos de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos. “À época, já conhecia alguma coisa dele, claro, mas muito por alto. E a leitura daquele livro de fato mexeu muito comigo. Fiquei emocionado, são poemas que falam muito da vida, do dia a dia, da solidão, das buscas do ser humano, das desilusões e da morte”, rememora, em entrevista ao Hoje em Dia.

Desde 2011, Álvaro de Campos voltou a frequentar assiduamente a mesa de cabeceira (e o coração) de Borges, agora na (ilustre) companhia de Vinicius de Moraes: desde então, ele percorre o Brasil (e outros países do mundo) com o espetáculo “Poema Bar”, que divide com o pianista João Vasco, e que chega à capital mineira nesta terça (14), para única apresentação às 20h, no Grande Teatro Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1.046). O espetáculo estreou em julho daquele ano, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, e, posteriormente, esteve em cartaz no teatro Bühne der Kulturen, em Colônia, na Alemanha. O público brasileiro conheceu o espetáculo em outubro do mesmo ano.

“Álvaro de Campos me ensinou a enfrentar muitas coisas, a buscar a profundidade. E a poesia, quando te pega, é muito forte – talvez mais que a filosofia ou a psicologia –, se você ler no momento certo. Assim, quando surgiu a possibilidade deste trabalho, imediatamente escolhi Álvaro de Campos”, compartilha Alexandre. Detalhe: no palco, ele lê poemas no próprio livro que ganhou, na cidade do Porto, lá atrás, em sua juventude.

Vinicius foi outra escolha para a qual não titubeou. “Meu primeiro longa foi com a filha dele, a Suzana Moraes – “Mil e Uma” (1995). Fiquei meses morando perto, eu vindo de São Paulo, ela cuidando de mim. E me aproximei da obra de Vinícius”. Aproximação que se estreitou com outras amizades, como a firmada com a neta do poetinha, a atriz e cantora Mariana de Moraes, no teatro.

Aura de emotividade pauta final do recital

Alexandre Borges ressalta que sim, muito antes do contato com Suzana e Mariana, já era, claro, fã de Vinicius de Moraes. “Mas confesso que era o Vinicius da infância, da Arca de Noé, e o da bossa nova. As poesias, não conhecia muito profundamente e, por coincidência, um pouquinho antes (do início do projeto), tinha encontrado uma das filhas dele, a Luciana de Moraes, e ela vem e fala: ‘você tem meio a ver com meu pai. Ele, quando mais novo, tinha traços parecidos com os seus’. Achei engraçado. Acabou sendo uma coincidência meio mágica”.

Logo depois, Suzana faleceu. “E isso (a comparação física) ficou na minha cabeça. Quando surgiu a oportunidade de fazer o trabalho, o João Vasco escolheu o Vinicius, meio que fui pesquisar mais e foi uma surpresa: li de maneira muito pessoal e me impactou tanto quanto descobrir (Fernando) Pessoa na minha juventude”.

Para o ator, Vinicius de Moraes também viveu intensamente o seu dia a dia. “E disso fez a sua poesia. Viveu a noite, a boemia, as mulheres, a solidão... São poetas de épocas diferentes, perfis distintos, mas tem a coisa das perguntas existenciais, dos casos, dos amigos. Engraçado que foi uma coisa aleatória, escolhemos dois poetas que, ao final das contas, se complementam”.

Ou seja, Alexandre pontua: não se trata de uma questão de escolher nomes-chamarizes, poetas já consagrados. “Aí entra esse lado, não faço (o espetáculo) com uma preocupação de performance, faço muito quase como uma terapia, querendo mostrar, à plateia, a minha leitura, o que aquele poema me bate, é um pouco por aí”, situa.

Um feedback bacana, assegura, tem sido o de pessoas querendo que se abra espaço para subirem ao palco e ler poemas. “E acaba virando uma coisa romântica, no sentido de trazer lembranças”.

Em alguns espetáculos fora do Brasil, a dupla recebeu um público de imigrantes, “pessoas que passam cinco, dez, às vezes 20 anos sem ver espetáculo de teatro de seu país de origem, e com muita saudade do Brasil”.

E que se emocionam. “Cada um tem seu poema preferido, seu momento que lembra sua terra natal. O que digo é que a apresentação sempre acaba com uma aura de muita emotividade, as pessoas saem com a sensibilidade aflorada”.

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