Grupo Oficcina Multimédia

‘O beijo no asfalto’ faz estreia nacional no CCBB-BH nesta sexta (28)

Espetáculo completa a trilogia dedicada a Nelson Rodrigues e investiga como um gesto de compaixão pode ser convertido em prova de culpa

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Publicado em 24/08/2026 às 20:32.Atualizado em 24/08/2026 às 20:36.
Montagem abre o ciclo de celebração dos 50 anos do Grupo Oficcina Multimédia (Netun Lima/ Divulgação)
Montagem abre o ciclo de celebração dos 50 anos do Grupo Oficcina Multimédia (Netun Lima/ Divulgação)

Sessenta e cinco anos após a primeira apresentação, "O beijo no asfalto", de Nelson Rodrigues, retorna aos palcos em nova montagem do Grupo Oficcina Multimédia (GOM). A estreia nacional será em 28 de agosto, no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte (CCBB-BH). A peça fica em cartaz até 5 de outubro. Após a temporada na capital mineira, estão previstas temporadas no CCBB Rio de Janeiro e no CCBB Brasília.

Escrita em 1960 e apresentada pela primeira vez em julho de 1961 pela Companhia dos Sete, com direção de Fernando Torres e Fernanda Montenegro no elenco, a peça acompanha Arandir, homem que presencia um atropelamento e atende ao último pedido de um desconhecido agonizante: um beijo.

O gesto de compaixão é imediatamente transformado em escândalo. A partir daí, imprensa, polícia, vizinhança e família passam a produzir e confirmar uma narrativa de desvio sexual, crime e traição. A palavra de Arandir perde espaço para uma versão pública construída por interesses, preconceitos, chantagens e falsos testemunhos.

Embora a obra seja frequentemente associada ao debate contemporâneo sobre fake news, pós-verdade e cancelamento, a montagem do Grupo Oficcina Multimédia desloca o foco para uma questão anterior: a capacidade de uma sociedade transformar um ato de humanidade em prova contra quem o praticou. 

“A tecnologia hoje amplia a circulação da acusação, mas o mecanismo social de condenação pública continua o mesmo”, afirma Ione de Medeiros, diretora do Grupo Oficcina Multimédia.

A permanência do texto de Nelson Rodrigues, portanto, não depende de equivalentes digitais para o antigo linchamento moral. A peça expõe práticas coletivas anteriores às redes sociais: a defesa da honra, o controle dos corpos, a suspeita diante do desvio e a conversão da família, da vizinhança, da imprensa e da polícia em instâncias de julgamento. “Depois que se lança uma notícia falsa, até se voltar à verdade original, uma vida já pode ter sido crucificada,” reflete Ione.

Para a diretora, porém, a força da obra não está apenas na crítica à desinformação. A montagem procura recuperar o sentido ético do gesto de Arandir, anterior ao escândalo e à condenação pública. “É um gesto de compaixão tornado prova criminal por uma sociedade que não suporta atos desinteressados quando eles ferem seus códigos de moralidade, normalidade e aparência”.

"O beijo no asfalto" completa a trilogia atualmente dedicada pelo Grupo Oficcina Multimédia à dramaturgia de Nelson Rodrigues, que inclui Boca de Ouro, de 2018, e Vestido de Noiva, de 2023.

Serviço                                                 

"O beijo no asfalto", de Nelson Rodrigues

Temporada: 28/8 a 5/10, de sexta a segunda, às 20h

Local: Teatro I - CCBB BH    

Ingressos: R$15 (meia) e R$30 (inteira), no site e na bilheteria do CCBB BH.         

Endereço: Praça da Liberdade, 450 — Funcionários, BH

Apresentações com Intérprete de Libras: 4, 13, 19 e 28/9

Apresentações com audiodescrição: 12/9 e 2/10

Classificação indicativa: 16 anos

Duração: 100 minutos 

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