
Maestro, cantor, compositor, diretor artístico e professor de percussão, Di Souza é um dos responsáveis pela retomada do Carnaval de Belo Horizonte desde o momento em que surgiram os primeiros blocos. Envolvido na fundação de grupos como “Então, Brilha!”, “É o Amô” e “Circula-dô”, ele foi o músico que criou diversas técnicas de regência que hoje são referência para outras agremiações carnavalescas da cidade – como o posicionamento do regente em cima do trio elétrico para coordenar a bateria. Ele também é o criador da escola Percussão Circular, responsável pela formação de milhares de batuqueiros ao longo de mais de uma década.
Em 2026, ano em que completa 20 anos como professor de percussão e 15 como agente cultural na folia, Di Souza ocupará posições centrais nos cortejos de 8 blocos de BH. Nesta folia, ele atua como regente do Circuladô, É o Amô e Abre-te Sésamo, retorna à direção artística do Então, Brilha! e segue pelo terceiro ano consecutivo também como diretor artístico do Volta Belchior e do Havayanas Usadas. O músico participa ainda das apresentações do Swing Safado e do Ori Samba.
Ao Hoje Em Dia, Di Souza conta como começou o envolvimento com o Carnaval ainda na cidade natal, Piedade de Ponte Nova, na Zona da Mata, e como os projetos sociais o aproximaram da cena cultural de Belo Horizonte. O carnavalesco falou ainda sobre o crescimento da folia na metrópole e as necessidades dos blocos que ainda precisam de mais atenção do Poder Público.
Como começou o seu envolvimento com o Carnaval?
Eu sou de Piedade de Ponte Nova, na Zona da Mata, e vivi a primeira década da minha vida lá. Nessa época, participei de grupo de teatro e depois entrei em contato também com o bloco de Carnaval da cidade, que ensaiava na rua abaixo da que eu morava. Um dia, fui assistir a um ensaio e me deram um ganzá (um tipo de chocalho em formato cilíndrico, preenchido com areia, grãos de cereais ou pequenas contas). Mesmo sem ter nenhum conhecimento técnico e sendo muito novo, lembro de sentir a música no corpo e conseguir balançar de forma que comunicava algo ali, e os adultos do bloco ficaram encantados.
Com 10 anos de idade, me mudei para a Vila do Acaba Mundo, em Belo Horizonte. Nessa época, início dos anos 2000, havia muito investimento (inclusive estatal) em projetos sociais. Então, já com essa pequena bagagem, me matriculei no Projeto Querubins, que é uma ONG muito famosa aqui na cidade. Depois, tive a felicidade de encontrar no meio do caminho o Corpo Cidadão, uma ONG fundada pelo Grupo Corpo. Aos 16, comecei a dar aula no Querubins, e depois em escola integrada. Então, quando iniciei o meu trabalho como docente, comecei a comprar instrumentos de percussão e a interagir com a cena independente da cidade. No começo, gravei com a Luiza Brina – quando ela ainda era do Grupo MutuM – e participei da banda Graveola.
Através dos trabalhos de percussionista e de educador musical, acabei me tornando maestro do Então, Brilha! e montei a primeira bateria do bloco. Essa bateria se destacou e eu comecei a influenciar o surgimento de outras baterias. Participei da construção do Baianas Ozadas, do Pena de Pavão de Krishna, e mais tarde fundei o Pisa na Fulô, o Abre-te Sésamo, o É o Amô, o bloco Circulador, depois fui fazer Carnaval em Diamantina…
Hoje, o Carnaval de BH é considerado um dos principais do Brasil. Como foi acompanhar esse crescimento?
Me sinto parte da construção de um movimento muito bonito e simbólico para a cidade. Eu acho que o Carnaval faz parte de um conjunto de atividades culturais que conseguiu devolver para Belo Horizonte uma certa autoestima que estava adormecida. Hoje, além de ter uma festa para chamar de sua, o belo-horizontino não precisa viajar para curtir o Carnaval em outra cidade.
É um feito histórico que se dá, inclusive, por esse modelo de baterias que eu e Peu Cardoso (músico, diretor do Havayanas Usadas e coordenador do Então, Brilha!) desenvolvemos lá atrás e que hoje virou uma forma padrão de se fazer Carnaval, que é essa coisa do regente ficar em cima do trio.
Então tem uma coisa muito bonita nisso de poder construir o próprio Carnaval, e pouco se fala dessa perspectiva social e cultural. Se fala muito de vir muita gente, de movimentar milhões em hotelaria e economia e de investimento do Estado, mas sinto falta da abordagem desse dado revolucionário de ser um Carnaval que as pessoas constroem junto.
Existe a participação do Poder Público, existe a participação das marcas, mas eu desconheço um Carnaval que tem tanta gente no lugar de protagonismo. Por exemplo, pessoas que têm profissões como engenheiro, pintor ou chaveiro e tem suas rotinas diárias, de repente estão em uma bateria durante o Carnaval. Obviamente, esse não é um mérito só de BH. O Carnaval, inclusive, é ser o que não se é durante os outros dias do ano. Mas a gente tá falando de uma de uma Belo Horizonte que, hoje, é musicalizada o ano inteiro.
Então, para você, o Carnaval de BH ser feito pelas e para as pessoas da cidade foi um dos fatores que alavancou essa festa?
Com certeza, porque isso se dá no chão. Se você tem uma bateria de 400 pessoas, vão ter ali mais umas 10 que cada uma dessas 400 vai chamar para ir ao cortejo, e isso vai se espalhando. Então, hoje tem muita propaganda no Carnaval, mas é importante dizer que o que levantou toda essa bola que o Carnaval tem hoje não é a atenção que o Estado e que a Prefeitura estão dando nesse momento, e sim o suor e o esforço dos trabalhadores do Carnaval. E não estou falando só de quem faz o bloco, mas dos ambulantes, dos cordeiros e de toda essa cadeia produtiva do Carnaval que é feito pelo povo.
Na sua perspectiva, o que ainda precisa melhorar para que o Carnaval de BH conquiste ainda mais espaço?
Falando por mim, não sei se a busca do nosso Carnaval é por mais espaço. Acho que existe uma busca por mais dignidade e por mais respeito a essa cadeia produtora. A gente percebe que muitos milhões são movimentados na cidade e uma parcela muito irrisória disso volta para os blocos.
Neste ano, o tema do cortejo do Havayanas Usadas vai ser “Brasil de Pé”. O que significa?
O “Brasil de Pé” é um tema que celebra a força, a fé e a coragem do povo brasileiro, que se mantém crente na existência e se agarrando à vida como pode, seja na espiritualidade ou seja na festa, apesar de todas injustiças que recaem sobre o nosso povo, a começar da forma como o país foi fundado. Então, o “Brasil de Pé” vem para poder celebrar essa força de dentro, que muitas vezes fica aterrada por uma série de injustiças que se faz contra nosso próprio povo. O “Brasil de Pé” é um ato festivo carnavalesco de luta e de reconhecimento à força do nosso povo.
E o que esperar do desfile?
Acho que se pode esperar um repertório que tenta narrar a riqueza da música popular, do Brasil como um país continental que celebra vários estilos diferentes. O Havayanas tem um repertório bem amplo, então acho que isso vai ser um destaque. Acho que isso é o ponto artístico mais interessante do cortejo, um repertório amplo que passa pelas regiões do Brasil e que celebra a diversidade musical do nosso povo.
Como professor e criador da Percussão Circular, quais são os desafios no processo de formar músicos em Belo Horizonte? Na sua visão, o que pode ser feito para impulsionar essa formação?
Acho que temos hoje uma carência das mais absurdas na cidade, que inclusive também é da responsabilidade do Poder Público resolver, que é espaço para ensaiar. A gente não tem espaço para os blocos ensaiarem hoje, os grupos estão ensaiando aí na chuva, custando a conseguir achar um lugar que caiba as baterias, porque não existe espaço que caiba os blocos que a cidade construiu. E não é por falta de espaço não, porque existe espaço não utilizado. Tanto o Governo (de Minas) quanto a Prefeitura tem imóveis que estão parados e que poderiam ser destinados aos blocos. Então, acho que essa é a maior carência.
O restante da festa nós estamos fazendo porque tem um povo muito alegre e receptivo, típico da nossa identidade mineira, que tá disposto a construir. Gente com muita competência para poder fazer o trabalho de formação no campo da regência. Bons profissionais da música, da cultura, da produção cultural. O que falta mesmo é a gestão pública olhar pra cidade. É o prefeito, por exemplo, olhar para a cidade e, ao invés de trazer artistas de fora para virem aqui se beneficiar de um Carnaval que as pessoas construíram, pegar espaços que estão parados e investir, reformar e criar casas do Carnaval e oferecer aos blocos. Dar um mínimo de estrutura para esses blocos que geram tanta riqueza econômica para a cidade.
Além da regência dos blocos e do trabalho como professor, você possui uma carreira solo. Quais são os planos pós-Carnaval?
Esse ano vou circular com um show que vai celebrar os 20 anos como professor. Então, tem um espetáculo, inclusive com um show marcado em São Paulo. Esse ano pretendo gravar um disco da Percussão Circular, com músicas que trazem um pouco dos ritmos do Carnaval de BH.
*Estagiária, sob supervisão de Renato Fonseca