O cinema de Kieslowski sob um novo olhar

Paulo Henrique Silva - Hoje em Dia
Publicado em 11/01/2015 às 10:38.Atualizado em 18/11/2021 às 05:38.
 (Arquivo Hoje em Dia)
(Arquivo Hoje em Dia)
Com a Polônia encerrando um ciclo de dominação comunista, durante a década de 80, o diretor Krzystof Kieslowski estava em busca dos valores mais básicos da humanidade quando propôs a realização do “Decálogo”, cultuada série de dez filmes baseados nos mandamentos bíblicos.
 
Kieslowski voltaria a discutir a nossa essência na também venerada “Trilogia das Cores” (“A Liberdade é Azul”, “A Igualdade é Branca” e “A Fraternidade é Vermelha”), baseada no slogan (“liberté, egalité, fraternité”) que, tendo vindo à tona na revolução francesa, tornou-se um bordão perpetuado naquele país. Mas, na avaliação do professor de cinema Paulo Pereira, foi com o “Decálogo” que o cineasta – que veio a falecer em 1996 – chegou mais próximo da discussão do papel do homem.
 
“Ele compreendeu que os mandamentos católicos eram um pacto, a primeira declaração de direitos humanos. Kieslowski irá repensar a grande crise da Polônia a partir desses fundamentos, em filmes que nos fazem refletir sobre o valor da consciência”, ressalta Paulo, que acaba de lançar um livro sobre a série, que foi exibida em alguns cinemas de arte na capital mineira, como o hoje extinto Savassi Cineclube.
 
Segundo Pereira, o livro “Série Decálogo de Kieslowski – Uma Análise Cinematográfica e Teológica” (Editora O Lutador) apresenta um oportuno debate, quando novamente vivemos uma crise ética mundial. “Não temos mais direito de exercer o nosso humanismo. A ordem é levar vantagem e enganar o mais fraco”.
 
Fruto de uma pesquisa de pós-doutorado na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), o livro analisa o “Decálogo” tanto pelo olhar cinematográfico quanto pelo lado teológico, muitas vezes encontrando, nesses duas vertentes, pontos em comum, como a exibição de luz e o aconchego no escuro.
 
Paulo lembra que, quando criança, queria ver Deus e que esse desejo, ao longo do tempo, se misturou com a experiência de ir ao cinema. “O ato de ver a luz saindo do projetor tem relação com o ideal cristão de querer enxergar a luz”, compara Paulo, que foi professor titular de cinema da PUC Minas entre 1969 e 2009. No livro, ele registra que um dos aspectos mais fortes na narrativa de Kieslowski, a ética, não é feita para julgar pessoas, “mas sim para definir valores que sejam referência para a ação”. O realizador mostra, segundo ele, que, na vida, o uso da razão para solucionar problemas práticos não é o bastante.
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