O comportamento humano em tempos de internet

Patrícia Cassese - Hoje em Dia
Publicado em 31/05/2015 às 12:18.Atualizado em 17/11/2021 às 00:17.
 (Victor G. Jeffreys II/Divulgação)
(Victor G. Jeffreys II/Divulgação)
A internet pode se transformar rapidamente em uma máquina de ódio – para tal, basta que um botão ultrassensível da máquina seja acionado. A frase consta do livro “Dataclisma – Quem Somos * (Quando Achamos Que Ninguém Está Vendo”), de Christian Rudder, que acaba de chegar ao Brasil pela Best Seller. O nome da casa editorial tem tudo a ver com a obra, que, como o alto da capa lembra ao potencial leitor, virou “best-seller” do “New York Times”.
 
O ódio mencionado na abertura refere-se a um episódio numa noite de ano novo. Safiyyah Nawaz, estudante de ensino médio na Carolina do Norte, usou o twitter para fazer uma piada: “esta linda terra agora tem 2014 anos, incrível”. 
 
MASSA DIGITAL
 
Em 24 horas, a mensagem foi retuitada 19 mil vezes. “Primeiro, eram pessoas intrigadas, perguntando-se se ela falava sério”, lembra Rudder, acrescentando que, ali, foi possível “ver a massa digital virar uma multidão”.
 
A agressividade dos retuites aumentava à medida em que seus autores tinham um grau mais afastado do “ser humano Safiyyah”, que, cumpre dizer, tinha, então, 17 anos. “Se mata, sua fdp idiota”, é um exemplo do teor postado.
 
ESTRAGO
 
Chocante? Na verdade, nada se comparado a outro exemplo citado (na página 149 do capítulo “Dias de Fúria”). “Pelas 11h que durou o voo de Justine, a Internet esperou sedenta de sangue pelo momento em que ela voltaria a ficar on-line e descobriria o estrago feito em sua vida”.
 
Justine quem? Bem, o autor fala, aqui, do tuíte de Justine Sacco, diretora de comunicação da IAC, empresa-mãe do OKCupid, ao entrar no avião rumo a Johanesburgo (as tais 11h): “Indo para a África. Espero não pegar Aids. Brincadeira. Sou branca”, postou.
 
Se alguém duvida da sandice, basta ir ao Google. Sacco teria um atenuante: estaria criticando o privilégio branco. Mas ainda durante o voo, entrou nos trending topics. E, ao desembarcar, havia, no aeroporto, uma multidão ávida por fazê-la ver o grau de sua atitude impensada.
 
Com outros exemplos, o autor lembra que idiotas exercem sua babaquice há décadas, ou seja, bem antes do advento web. E convida a jogar luzes sobre o porquê de sentir prazer em ser cruel. Enigma que, convenhamos, parece estar anos-luz de ser decifrado.
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