“O dia do galo” estreia mostrando o frenesi da final da libertadores de 2013

Paulo Henrique Silva - Hoje em Dia
Publicado em 23/07/2015 às 07:04.Atualizado em 17/11/2021 às 01:02.
 (Luiz Costa/Hoje em Dia)
(Luiz Costa/Hoje em Dia)
O Mineirão está praticamente vazio, normal para uma tarde de terça-feira sem jogos. As traves estão desmontadas e o gramado “descansando”, após receber um tratamento especial para ficar vistoso na próxima partida. Mas bastou um grito de “Galo!”, proferido das arquibancadas, para um grupo de estudantes, no nível do campo, responder entusiasmadamente.
 
Cris Azzi brinca, ao posar para o fotógrafo do Hoje em Dia, que não queria estar na cadeira 23, mas sim uma depois, referindo-se ao dia em que o Atlético foi campeão da Copa Libertadores, em julho de 2013. 
 
Na véspera de completar dois anos da data histórica, o diretor está de volta ao palco da conquista, para falar do documentário “O Dia do Galo”, que tem lançamento nesta quinta-feira (23) nos cinemas.
 
“Voltar ao palco” é força de expressão, já que Cris preferiu estar do lado de fora. Primeiro, porque “emocionalmente não daria conta”. A segunda razão é Dona Leontina, que era a torcedora mais antiga do Galo, com 102 anos (falecida no ano passado). “Como já tinha iniciado o contato com ela, achei que seria muito delicado escalar outra pessoa para passar aquele dia ao lado dela”.
 
Dribles
 
Para realizar “O Dia do Galo”, Cris e seu codiretor, Luiz Felipe Fernandes, formaram dez equipes, uma delas para ficar na cola do sambista Lucas Flainblat. O personagem deu alguns “dribles” na produção, principalmente após avisar que tinha conseguido um ingresso de última hora para ver o jogo. “Na hora, nem lembrei do que tinha combinado com eles”, recorda o compositor.
 
Assim como no campo, em que o Atlético precisava virar um placar adverso (o Olimpia, do Paraguai, havia vencido o jogo de ida por 2 a 0), a sorte também estava do lado dos realizadores. “O câmera não tinha ingresso e imediatamente perguntei no Facebook quem teria um. Por sorte, uma pessoa não poderia ir ao jogo e tinha um bilhete exatamente no setor que eu precisava”.
 
Lucas é uma das figuras centrais do filme. Como não há imagens do jogo, apenas do que acontece nas arquibancadas, seu rosto expressa as várias situações da partida, da angústia à emoção de uma vitória decidida nos pênaltis. “Ele é o típico torcedor atleticano, que não torce por títulos, mas sim pelo Clube Atlético Mineiro”, registra.
 
“Eu Acredito!”
 
Cris usa Lucas como exemplo quando perguntado sobre a continuidade do projeto no caso de uma derrota. “Seria mais difícil, mas ainda assim um belo filme. Apesar de o Atlético sair em desvantagem na final, tinha uma atmosfera em que não passava pela cabeça de ninguém que o resultado pudesse ser outro”, salienta. 
 
Felicidade que não se repetiu no Marrocos, quando o Galo disputou o Mundial de Clubes, no final daquele ano. “Faria a mesma coisa, na final, com um personagem apenas (o locutor Mário Henrique Caixa, também presente no documentário), mas aí levamos aquela rajada”, lamenta Cris, ao falar da inesperada derrota para o Raja Casablanca, na semifinal.
 
Times e jogadores inspiram filmes de ficção e documentários
 
O futebol já foi tema de filmes de ficção – “Fuga para Vitória” (1982), com Sylvester Stallone dividindo a bola com Pelé, Bobby Moore e Ardiles – e vários documentários sobre ídolos e conquistas de seleções nacionais, mas ultimamente vem ganhando força nos cinemas produções sobre os principais clubes do país.
 
Além de um bocado de marketing, palavra que hoje tem um grande peso para os times, como forma de ajudar a fechar as contas, os filmes são impulsionados por uma audiência certa: os próprios torcedores. Esse é um dos fatores que explica o sucesso de “Bahêa Minha Vida” (2011), visto por 74.857 pessoas.
 
Paixão
 
Dirigido por Márcio Cavalcanti, o longa superou o público de outros documentários recentes, como “Fiel – O Filme”, que foca a trajetória do Corinthians em busca do retorno à série A do Campeonato Brasileiro, em 2008; e “Gigante – Como o Inter Conquistou o Mundo”, sobre o título mundial dos gaúchos, há nove anos.
 
“O que diferencia ‘Bahêa’ dos outros é que não mostra jogos ou uma campanha em particular. É mais sobre a torcida e a paixão pelo clube”, destaca Daniel Dórea, editor de Esportes do jornal “A Tarde”. Ele cita o que é a cena mais emocionante do filme, quando quatro jogadores campeões nacionais de 1959 são reunidos num bar.
 
“O diretor os leva sem avisar que os outros estarão lá também. No início, não se reconhecem, mas depois vão conversando e percebendo que participaram da mesma história”, registra. Em outro momento, Zé Carlos, campeão em 1988, é mostrado num estádio vazio, relembrando, às lágrimas, dos fatos que envolveram a conquista.
 
No Rio Grande do Sul, a produtora G7 lançou vários documentários sobre as conquistas de Internacional e Grêmio e extrapolou sua área de atuação, fazendo filmes para equipes de São Paulo. “Explorando a paixão dos torcedores, foram bem de bilheteria, mas todos têm um formato parecido, com imagens de arquivo e depoimentos”, analisa Caroline da Silva, editora-assistente do “Jornal do Comércio”.
 
Ídolos
 
Alguns filmes sobre ídolos de clubes, como Pelé, dos Santos, e Heleno de Freitas, do Botafogo, também ganharam produções caprichadas. “A cinebiografia de Heleno chega a configurar-se por um retrato antropológico de uma época. E destaco ‘Pelé Eterno’ pela fidelidade ao personagem resgatado, pela História com H maiúsculo, que contempla fãs e torcedores”, analisa Caroline, que também é mestre em Comunicação _ Mídias Audiovisuais pela Unisinos.
 
Dos gaúchos, ela sugere “Ainda Orangotangos”, rodado em plano-sequência, que apresenta “referências muito afetivas ao Internacional, como parte da tentativa de trabalhar com elementos culturais de Porto Alegre”.
 
Memória afetiva da decisão continua sendo a protagonista
 
A câmera se volta para o campo de jogo segundos antes do lance capital, no chute errado do jogador paraguaio, durante a disputa de penalidades, que dará ao Atlético o título da Copa Libertadores.
 
É o único instante em que “O Dia do Galo” exibe uma imagem da partida, surpreendente antevisão do seu realizador que tem muito a ver com a própria campanha do clube mineiro na competição.
 
O mérito, claro, é de quem esteve dentro de campo, mas os torcedores tiveram grande parcela de responsabilidade. O que o filme faz é mostrar esse poder em imagens, voltando suas câmeras justamente para as arquibancadas.
 
O que interessa é a energia que cercou o jogo decisivo, acompanhando todos os momentos do dia, desde a hora de se levantar, de gente que viu o jogo no computador, no bar da esquina ou no próprio estádio, sem distinção.
 
Importam a consciência de um dia atípico, com a tensão invadindo cada tarefa do dia, como se fosse um longo ritual de preparação, e os rostos que sintetizam angústia e felicidade diante do que imaginamos acontecer.
 
Essa operação de “rebatimento”, em que acompanhamos a partida por tabela, estabelece uma brilhante relação com a tradição oral, não importando o que está sendo dito, mas a maneira como ele é feito, transformando o interlocutor em personagem.
 
A narrativa nos conduz a um outro jogo, transcorrido na memória do torcedor, que concebe, à sua maneira, a reconstrução dos lances. Ainda que busque perpetuar um momento histórico, a virtude do filme é permitir que a memória afetiva continue sendo a protagonista.
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