
“Só achei que haveria mais”, diz, a um certo ponto, Olivia, ou simplesmente Liv, a personagem de “Boyhood” (Richard Linklater) que rendeu a Patricia Arquette o Oscar 2015 de Atriz Coadjuvante. A mãe de Samantha (Lorelai Linklater, ótima) e Mason (Ellar Coltrane, meio que o foco da trama) se refere, em sua fala, à vida. Na chamada “meia idade” (que, vale salientar, hoje não tem o mesmo peso do passado), ela constata que o tempo passou, os filhos estão saindo de casa e, em suas palavras (que soam exageradas para o próprio filho), o capítulo seguinte é o funeral. Com três relações desfeitas, ela se muda para um apartamento menor e se dá conta de que passou metade da vida acumulando coisas, boa parte das quais terá que se desfazer nesta outra hipotética metade que lhe resta.
Um dos filmes mais badalados dos últimos tempos, inclusive pela singularidade de ter sido filmado em um espaço de 12 anos, com os mesmos atores (além de Arquette, o outro nome conhecido do cast é Ethan Hawke), “Boyhood” (disponível agora em DVD, BluRay e on demand) se debruça sobre a vida ordinária, na acepção do termo. Aquele que caracteriza a passagem da maioria dos seres humanos pela Terra. Uma vida sem grandes acontecimentos, “normal”, permeada por dificuldades das mais diversas e familiares (relações amorosas desfeitas, conflitos...).
O passar dos anos é pontuado não somente pelas alterações físicas inerentes ao modo pelo qual Linklater filmou sua história, como por balizas culturais que caracterizaram este intervalo, seja o advento “Harry Potter” ou a febre “High School Musical”, para não falar de Lady Gaga. A política (inclusive a internacional) aparece com a eleição de Barack Obama e os corpos trucidados e expostos em uma ponte em Fallujah, em 2004, época da invasão norte-americana ao Iraque.
Além das boas atuações, o filme traz um chamariz adicional: a trilha sonora, irretocável, que agrega de nomes “velhos” e impolutos – Bob Dylan, Paul McCartney – a representantes do quem é quem da cena contemporânea: Vampire Weekend, Kimbra, Yo La Tengo, Kings of Leon, Arcade Fire... Ah, sim! Tem espaço para dois nomes da nova leva patropi. Moreno Veloso comparece com três músicas e Luiza Maita, com duas. E já que estamos nos detendo neste ponto específico, vale ouvir, com atenção, a música “Hero”, do Family of the Year, que, tocada quase ao final, sintetiza o espírito da empreitada com frases como “Let me Go/I don’t wanna be your hero/I don’t wanna be a big man”.