
Marcelo Paganini vai completar 50 anos. “No dia 11 de dezembro, véspera do aniversario da cidade”, frisa, citando BH, sua terra natal. Neste quase meio século de vida, ele – que também é produtor e cineasta – contabiliza 40 anos dedicados à música. Se afirmando autodidata em alguns instrumentos (como a guitarra; em outros, como o violino, teve seus estudos), Paganini está na França há 30 anos e, com toda pertinência, comemora o atual momento. Explica-se: em janeiro, lançou “2012 Space Traffc Jam”, álbum independente de prog rock jazz fusion, gravado em Londres. “Existe um velho ditado: ‘sua banda é tão boa quanto o baterista’. E, neste caso, o Gary Husband foi extremamente gentil de gravar a bateria nas dez faixas. Já o baixista francês Marc Madoré gravou nove. Eumir Deodato, por sua vez, foi muito generoso ao gravar teclado em três. E dois ex-membros do Yes – Tony Kaye, no Hammond, e Billy Sherwood, no baixo – gravaram a faixa “Somewhere somehow”, incluída na compilação da revista “Prog” UK, junto à banda Transatlantic, do Mike Portnoy, e outras”.
Marcelo compôs, produziu e arranjou musicas e letras, tocou guitarras em todas as faixas, teclados na maioria, e fez quase todos vocais. Na sequência, Michael Molenda, editor da “Guitar Player” resolveu fazer a matéria sobre o lançamento. “Sonhei minha vida inteira com isso, um milagre”, brinda, acrescentando que obteve críticas positivas na Alemanha, EUA, Inglaterra, Bélgica, Portugal... “Inacreditável. Um privilégio ser compreendido e reconhecido enquanto estou aqui para ver. Rádios e programas progressivos tocando o CD inteiro ou algumas faixas. Recebi mensagens incríveis que fazem todos esses anos de luta valer a pena”.
Saudades e dores
Paganini foi para a França no final de 1984. Atualmente, mora numa cidadezinha na Normandia, a 250km oeste de Paris. Um lugar de montanhas, florestas, lagos, rios, céu estrelado – e muitos animais, de passarinhos a javalis. “Aqui, as luzes se apagam às 23h. Tenho meu estúdio onde posso tocar e gravar guitarra elétrica e até bateria, a qualquer hora do dia ou da noite. E posso acordar às 5h e estar em Londres antes das 14h, hora local. Ao mesmo tempo (é um lugar) longe e perto”.
Contaminado pela qualidade de vida, é sincero: não pensa em voltar. “A vida é muito curta para ficar esperando o Brasil se tornar o país que merece ser. Me assusta e me entristece a cidade verticalizada e violenta que (BH virou, eu tinha outras esperanças”. Ele cita, em particular, a violência no futebol. “Morava do lado do Mineirão, mesmo se havia brigas de torcida, o clima era muito mais leve. Acompanho pela Internet, quantas mortes inúteis... É só um esporte!”, indigna-se.
As redes sociais também são motivo de estupor. “Meus amigos se insultando na Internet, como se fosse normal! ‘Não te intromete, etc e tal’... “.
Ao rol de decepções, ele acrescenta a violência na estradas. “Quantas pessoas queridas perdi. Uma vergonha. Cristalizei em mim a lembrança de uma cidade jardim onde se namorava na rua até tarde sem perigo e tudo era muito mais inocente. Amo meu país de paixão, meu coração sofre todos os dias com a saudade, mas o descaso das autoridades, a imprudência dos motoristas... Queria voltar para uma BH que não existe mais ou para uma BH que poderia ter sido –e (neste caso) de onde nunca teria saído”, desabafa.
O álbum está disponível em formato digital e CD no CD Baby, iTunes e Amazon.