Nos anos 40, o espanhol Salvador Dali pintou uma obra de grandes proporções, exatos 15x9m2, para uma criação de balé exibida no Metropolitan Museum, de Nova York. Dado como perdido desde então, o painel recém-reapareceu nas mãos de um colecionador (ele prefere se manter no anonimato), que propôs a Daniele Finzi-Pasca montar um espetáculo inspirado na obra enfim reaparecida.
"La Verità", o espetáculo, estreou em janeiro, em Montreal, no Canadá, já passou por Montevidéu, no Uruguai, e agora visita Belo Horizonte, pela turnê que realiza por cinco capitais do país. Aqui, as apresentações acontecem no Palácio das Artes, de até domingo (7). Os ingressos custam entre R$ 250 e R$ 67,50 e a produção local é da Malab, a mesma por detrás da turnê brasileira de Elton John – só para situar melhor a importância desta empreitada, que tem agenda para circular por oito países, até março de 2014, na Europa e na América Latina.
Nascido em Lugano, Suíça, de uma família de fotógrafos profissionais, Daniele Finzi-Pasca dirige "La Verità". Muito apegado ao Brasil e a muitos artistas brasileiros, ele já esteve prestes a dirigir um espetáculo do grupo Galpão, projeto que a primeira eclosão da crise econômica mundial não permitiu levar adiante. Já teve um espetáculo exibido na sede do Galpão e um outro, "Donka", homenagem aos 150 anos de morte de Tchecov, abria a programação do FIT/BH de 2010.
Embora envolvido com um projeto inspirado na obra de Dali (um dos artistas mais reconhecidos em todos os tempos, apesar das ressalvas que se possa fazer às suas inclinações políticas à direita), Daniele não se diz uma autoridade sobre o artista e sua obra. Nem mantém compromissos em reproduzir os elementos que Dali se serviu em sua vasta criação de feição surreal, de uma maneira até obsessiva.
"Diria que é mais uma livre inspiração", frisa Beatriz Sayad. Atriz, palhaça do núcleo carioca do Doutores da Alegria e diretora (de "Estamira – Beira do Mundo", por exemplo), ela é parceira de trabalho de Daniele desde 1992. É a a única do Brasil no elenco de respeitáveis profissionais nas técnicas circenses, clown, canto, dança e interpretação teatral. Num total de 13 artistas de seis nacionalidades.
É uma grande produção (embora ela desgoste do termo), pela magnitude logística e pelas demandas técnicas que requisita. Mas sem perder a intenção de tocar o espectador, além do olhar, pelo sensível, pelas sutilezas, mas que alcança tamanha estatura estética que as fotos desta edição ajudam a situar. Uma montagem rica no sentido em que guarda "muitas camadas", em que a música exerceria deliberada acentuação dramatúrgica.
Obra não foi feita para museu, é um cenário propício ao uso teatral
Levando em conta os rigorosos esquemas de segurança que cercam as obras de grande valor artístico, por incrível que pareça não é uma reprodução que viaja mundo afora com "La Verità". É a peça original, a pintura denominada "Tristão e Isolda", que o catalão Salvador Dali criou especialmente para servir de fundo ao balé "Tristan Fou".
É de propósito que a obra viaja. "Ela não foi feita para estar em museu, é um cenário, foi feito para estar no teatro", diz atriz Sayad. Mas estaria cercada por cuidados de conservação, lógico, e os refletores guardam distância para não causar danos.
O painel também se prestaria a sublinhar a intenção onírica, surreal, delirante, tão recorrente na criação de Dali. Tudo o que ela mescla de sonho e realidade. Já o espetáculo contém traços recorrentes da criação de Daniele Finzi-Pasca. "Ele permanece fiel a seus sonhos e suas memórias, embora não se obrigue a deixar claro o que significam os elementos que usa", comenta Bia. Quem segue Daniele saberia que, em seus espetáculos, "em algum momento, vai cair chuva, alguém voa de repente".
Para saciar a curiosidade acerca da significação do título do espetáculo, Bia informa que ele é anterior à montagem. Um nome que Daniele aguardava a hora de usar. Não remeteria, portanto, a uma suposta "verdade" em/ou de Dali, ou uma verdade expressa pela encenação. Talvez, uma remissão ao terreno incerto entre o que é real e o que não é.
Serviço
Espetáculo "La Verità" no Palácio das Artes (avenida Afonso Pena, 1537, Centro). De sexta (5) a domingo (7), às 21 horas. Valor das entradas variam de R$ 67,50 (meia - balcão) a R$ 250 (inteira - setor 1).