
Não basta ter foliões animados. Para receber cerca de 200 blocos pelas ruas de Belo Horizonte durante o Carnaval, é preciso que haja muitos percussionistas em ação. E os ritmistas que colaboraram para a bela festa que tomou conta da capital mineira possuem, hoje, um espaço onde podem se aprimorar, se reunir e ensaiar: o Núcleo de Estudos da Cultura Popular (Necup).
Criado há oito meses em um galpão localizado no bairro Prado, próximo à Via Expressa, o centro cultural nasceu com a intenção de fortalecer o trabalho dos percussionistas da cidade. Ali, os músicos podem realizar seus ensaios sem se preocupar com o som alto, guardar seus instrumentos, realizar cursos de capacitação (uns pagos, outros gratuitos), participar de festas e ter contato com mestres das mais diferentes manifestações culturais convidados para dar palestras e workshops.
A iniciativa partiu do percussionista Rafael Leite, de 33 anos, que há quase dez anos comanda o projeto “Percussão Brasil”, dedicado à pesquisa sobre percussão e cultura popular. Nascido em Montes Claros e criado em meio à Marujada e o Congado, o rapaz desenvolveu um amor pelos mais diferentes tipos de batuques brasileiros, como samba, maracatu, tambor de crioula e congado.
“Os grupos foram nascendo e chegou um momento em que eles não tinham onde ensaiar. Vários tiveram problemas ao realizar ensaios nas praças, porque as pessoas reclamavam do barulho. Também não tinham onde guardar os instrumentos. Assim, nasceu o Necup, um espaço de cultura popular, não só brasileira. Aqui há espaço também para as culturas da América Latina e da África”, afirma Rafael Leite.
Mas o Necup não é simplesmente um espaço físico. É uma associação cultural cheia de iniciativas. Durante o pré-Carnaval (mais precisamente no dia 23 de fevereiro), promoveu um cortejo percussivo pelas ruas do Barro Preto e do Prado. Hoje, o Necup fecha a programação carnavalesca com um evento diferente: o “Segundo Encontro de Cuícas de Belo Horizonte”, realizado na Praça da Estação. O evento, com cuiqueiros de todo o país, conta com participação das baterias Imperador e a recém-criada Imperatriz.
Necup não conta com verba pública
Associação sem fins lucrativos que não conta com nenhuma verba pública (a entidade aguarda publicação dos contemplados no Fundo Municipal de Cultura), o Núcleo de Estudos da Cultura Popular (Necup) se mantém graças às próprias atividades. Eventos fechados e cursos pagos contribuem para pagar os cerca de R$ 5 mil de custos com aluguel.
Mesmo assim, há também espaço para o trabalho social, do qual Rafael Leite não abre mão. Há três anos, às quartas e sábados, ele promove aulas de percussão gratuitamente.
“Com o Carnaval voltando a Belo Horizonte, tive a ideia de promover uma renovação nas baterias das escolas de samba, que estavam um pouco desatualizadas”, afirma Rafael Leite, que tem investido especialmente no tamborim. “Criei o TPM – Tamborim para Mineiros, onde ensino a tocar esse instrumento e mostro que é preciso ter muita técnica, condicionamento físico e disciplina”.
Blocos
Quem se beneficiou de verdade da criação do Necup foram os blocos de rua. Vários dos mais bem-sucedidos do Carnaval de Belo Horizonte – como Alcova Libertina, Baianas Ozadas e Chama o Síndico – realizaram seus encontros no centro cultural. Grupos não carnavalescos, como Trovão das Minas e Samba da Meia-Noite, também. O espaço se tornou também o principal ponto de encontro da Bateria Imperador (formada por ex-alunos de Rafael, presta serviços para blocos e escolas de samba) e da recém-criada Bateria Imperatriz (formada só por mulheres que passaram pelo programa Percussão Brasil).
Mas o Necup não é apenas um local para batucar. Ali está acontecendo um cineclube e montada uma biblioteca. Também é o lugar onde o projeto Percussão Brasil pode realizar encontros entre percussionistas e mestres da cultura popular. Até hoje, a iniciativa já trouxe a Belo Horizonte mestres do Maranhão e de Pernambuco, além de importantes nomes das baterias do Salgueiro e da Portela.
Média de quatro shows por dia no Carnaval
Rafael Leite é muito jovem, mas é um veterano no universo da música. Aos 14 anos, começou a tocar em bandas de baile de Montes Claros e, logo que se mudou para BH, para terminar o Ensino Médio, já passou a encarar a música como profissão. Não demorou muito a integrar a famosa banda de baile Lex Luthor e chegou a excursionar pelo país ao lado da dupla César Menotti & Fabiano.
Os dois trabalhos permitiram que Leite pudesse estabelecer contatos importantes com percussionistas de diversas partes do país. Teve contato com mestres do samba, do maracatu, do tambor de crioula, do congado. “Depois de tocar, enquanto o pessoal ia para o hotel descansar, ia para a rua conhecer pessoas. Ia a escolas de samba, onde tivesse cultura popular. Nessas viagens, também comprava meus instrumentos e fui montando um grande acervo”, lembra.
O foco do artista não é somente a cultura brasileira. Há alguns anos, Leite passou a investir fortemente na música cubana, participando de projetos como Unión Latina, La Noche Cubana e Brascubazz. Já realizou três viagens à ilha caribenha, sendo a última voltada para uma pesquisa que durou três meses. “Já trouxe músicos cubanos para cá, como a banda Yoruba Andabo, e pretendo levar para lá uma bateria de samba, que é algo que eles não conhecem de perto. Há muito em comum entre nossas culturas e costumo dizer que são dois países gêmeos separados no parto”, diz.
Correria
Entre tantos projetos, Leite tem uma rotina que poucos dariam conta de encarar. Trabalha de domingo a domingo, envolvido com a administração do Necup e muitos shows. No Carnaval, o envolvimento foi muito maior, com uma média de quatro shows por dia. Só na derradeira terça-feira, ele tocou com Dudu Nicácio na Praça da Estação, viajou para Congonhas para acompanhar Aline Calixto, e voltou à capital para se apresentar em escolas de samba. “Se um dia você colocar alguém com uma câmera para acompanhar o meu dia, ele certamente ficará cansado”.