"Os arquivos de Snowden": o inimigo do "grande irmão"

Elemara Duarte - Hoje em Dia
Publicado em 23/03/2014 às 10:54.Atualizado em 20/11/2021 às 16:48.
 (The Guardian)
(The Guardian)
Os terroristas e, num passado relativamente distante, os comunistas. Agora, o WikiLeaks e... Quem diria? Um jovem de 30 anos chamado Edward Snowden integra a lista dos mal-me-queres norte-americanos. Protagonista de escândalo diplomático já marcado com ferro e criptografia na linha histórica, o ex-analista da Agência de Segurança Nacional (NSA) norte-americana Edward Snowden agora tem história contada no livro “Os Arquivos Snowden” (Editora Leya), do jornalista Luke Harding. Hoje, o famoso delator vive na Rússia, em asilo temporário.
 
Desiludido com a obsessão dos Estados Unidos em bisbilhotar e, consequentemente, com os resultados nada pacíficos desta prática, “Ed” Snowden, o nerd mais famoso do mundo, revelou programas governamentais de vigilância virtual em massa até então desconhecidos. Para isso, o analista procurou um jornal. Simples assim. Só que não...
 
Ed mandou um simples e-mail para o colunista Glenn Greenwald, do jornal britânica The Guardian, se autodenominando “membro sênior da comunidade de inteligência”. Assim, o misterioso informante iniciou o envio de amostra de arquivos secretos da NSA, como se fossem iscas para o colunista.
 
O conteúdo intrigante mostrava que a espionagem não era apenas contra os terroristas ou contra países concorrentes na soberania política e bélica na Terra. Havia também rastreamento de cidadãos acima de qualquer suspeita. Paranoia? O fato é que o Reino Unido também estava em conluio com os norte-americanos para a degradação da privacidade. Era algo praticado por um estado, mas que ia além dos limites legais.
 
Glenn estava trabalhando no Brasil, onde também mantém namoro com um brasileiro. Ed, estava em Hong Kong e, para lá, chamou o colunista que aceitou o convite. Ele foi ao encontro acompanhado da documentarista Laura Poitras. “Eu pensei que ele devia ser um burocrata, alguém mais velho”, disse Glenn ao autor do lançamento.
 
Porém, o que o colunista viu foi um jovem loiro, de óculos, com cara de menino. Edward Snowden, proferindo um cinematográfico “Sigam-me!”, os levou ao apartamento do hotel em que estava hospedado.
 
Ao longo do dia, Ed contou sua história aos convidados. Explicou como as habilidades com a tecnologia da informação o levaram ao seletivo cargo na NSA – posição esta que ele havia deixado duas semanas antes. O analista estava em Hong Kong com quatro laptops onde o “tesouro informativo” estava resguardado com informações fortemente criptografadas.
 
Coragem tamanha do colunista, poderia ter caído em um trote. Mas, um “mico” maior para a carreira jornalística seria confiar tremendamente no que aquela fonte falava e mostrava. A credibilidade do jornalista em jogo. Perguntas, perguntas e mais perguntas e apurações seguiram-se. “Ele explicou com lucidez, de modo frio e convincente, que tinha uma rara visão sobre as extraordinárias capacidades de vigilância da NSA, e que podia enxergar o território nebuloso para onde a agência estava caminhando”, avalia o autor do livro. 
 
Ex-agente promete novas denúncias
 
Durante uma palestra por vídeo feita na conferência do Tecnologia, Entretenimento e Design, no Canadá, semana passada, Snowden prometeu novas revelações sobre os programas de espionagem americana. Ele argumentou que se tivesse levado as denúncias ao Congresso dos EUA, teria sido “enterrado junto com as informações”. O ex-agente convocou a população mundial a lutar pela privacidade e pela liberdade na internet.
 
Petrobras era o alvo de maior interesse no Brasil 
 
Segundo Harding, a NSA estava capturando dados de milhões de norte-americanos. “Registros telefônicos, cabeçalhos de e-mail, as linhas de assunto, tudo levantado sem autorização ou consentimento”. A partir disso, era possível o detalhamento da vida de qualquer pessoa desde seu trabalho até seus affairs.
 
A agência, continuou revelando Ed, havia ligado interceptadores de dados a cabos de fibra ótica submarinos que circundavam o planeta. Resultado: não apenas os Estados Unidos e o Reino Unido estavam no alvo da vigilância mas, também, as gigantes Google, Facebook, Apple, entre outras e países como o Brasil.
 
“Além de colocar escutas nas lideranças democraticamente eleitas no Brasil, a NSA, de forma secreta, havia direcionado sua atenção para a Petrobras”, lembra o livro. Na época, a informação provocou forte mal-estar na diplomacia entre Brasil e Estados Unidos.
 
A privacidade foi pelo ralo. Mas Ed também colocou à prova a impenetrável segurança da NSA. Assim, também, o jovem Edward Snowden, jogou fora a carreira e a própria liberdade.
 
Em justificativa para seu ato, Ed dizia: “Não quero viver em um mundo onde tudo que digo, tudo que faço, todos com quem converso, toda expressão de criatividade, amor ou amizade estejam sendo gravados”.
 
Obviamente que a afronta aos homens mais poderosos do planeta não sairia de graça nem para o colunista, muito menos, para o veículo em que trabalhava. O jornal “The Guardian” teve arquivos destruídos.
 
“Os Arquivos Snowden”, por sua vez, dirigem o alvo para o dono da delação. O livro fala de um jovem ávido por games, portador de surreais e autodidatas habilidades em tecnologia da informação e de como este jovem chegou a ser alvo de preocupação da nação mais poderosa do mundo.
 
Para alguns, a máxima “faça a sua parte” pode ter repercussões inimagináveis. Desde o vazamento, Ed vive fugindo pelo mundo. A última parada é a Rússia de Vladimir Putin, não-aliado declarado dos Estados Unidos, onde chegou depois que o ex-hacker Julian Assange, do WikiLeaks, e mais alguns inimigos de Barack Obama mexeram seus pauzinhos. 
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