
Mário de Andrade morreu há 71 anos, mas sua obra continua fundamental para a cultura nacional. Prova disso é que o projeto “Letra em Cena”, do Centro Cultural Minas Tênis Clube, elegeu o autor de “Pauliceia Desvairada” (1922) para ser o primeiro autor desvendado por um pensador de destaque.
O músico, professor e ensaísta José Miguel Wisnik vai tratar de “Macunaíma” (1928) em “Letra em Cena – Como Ler Mário de Andrade”, mostrando quantas camadas de significações são possíveis nessa obra-prima da literatura brasileira.
“Vou visar dissolver os estereótipos de que o herói é simplesmente o ‘brasileiro preguiçoso’, visto negativamente, ou o ‘brasileiro criativo e festeiro’, visto positivamente. Busco mostrar a complexidade do livro, que faz com que ele contracene e dialogue de maneira problemática com o presente”, afirma Wisnik.
Para ele, “Macunaíma” é o mais importante título da vasta bibliografia de Mário. “Embora fascinante quando se adentra, não é um livro fácil, se formos para ele buscando estereótipos e clichês. A meu ver, devemos estar atentos àquilo que é a riqueza da literatura: nos tirar do lugar, oferecer o que não esperávamos. É um livro sobre o enigma da formação e do destino brasileiros, nada óbvios”.
Importante lembrar que o projeto “Letra em Cena” também irá tratar de Guimarães Rosa, Ana Cristina Cesar e Murilo Rubião nas próximas edições.
Popular
Como a obra de Mário de Andrade caiu no domínio público ano passado, as livrarias devem passar a receber muitas publicações referentes ao escritor.
Uma delas é “Briga das Pastoras e Outras Histórias – Mário de Andrade e a Busca do Popular” (SM), livro de escritos de natureza variada, que dão uma boa ideia da multiplicidade de recursos e de registros da prosa de Mário de Andrade. São 13 textos, reunidos pelo mineiro Ivan Marques, professor de Literatura Brasileira na USP.
“O que liga as histórias é a presença das imagens do povo e da cultura popular, que os modernistas consideravam a essência da brasilidade e, portanto, a principal matéria-prima da estética moderna que desejavam implantar no país e exportar para os centros avançados. Daí a extrema dedicação de Mário de Andrade aos estudos folclóricos, de que ele foi um pioneiro no Brasil”, explica Marques.
Mas o contato entre o intelectual Mário e a cultura popular não era tão harmônica quanto imaginamos, e a distância de classe acaba sendo tematizada nesses textos. “O processo de ‘ida ao povo’ não era assim tão simples e imediato, e seus impasses também figuram nos enredos criados ou reinventados por Mário de Andrade, tornando-os paradoxais e dramáticos”, pontua.