
Aos olhos de um leigo, a sonoridade de uma música depende apenas dos instrumentos e de quem os toca. Mas quem entende do assunto sabe bem que o som de uma banda depende de circuitinhos eletrônicos que, muitas vezes, passam despercebidos pelo grande público. Fundamentais em shows e gravações, os pedais de efeitos são apetrechos tecnológicos que provocam verdadeiro fascínio em artistas.
Thiaggo Tayer, guitarrista da banda Killer Klowns From Outer Space, é um exemplo de fanático por pedais analógicos. Já chegou a inserir até 15 aparelhinhos em seu set (nome dado à caixa na qual eles são ligados). Até chegar à montagem ideal – hoje com nove pedais –, foram quatro anos de experimentações sobre as sonoridades provocadas a cada aquisição.
“Cada pedal tem um timbre e um som diferente, e tem muita coisa que você não encontra facilmente para testar, tem que comprar”, afirma Thiaggo. “Quando você compra, não leva em conta somente o efeito, mas também a estética do set”.
Dono de três guitarras, ele tem noção de que a maior parte de seu investimento foi para os aparelhinhos. “Se você pensar que cada pedal custa cerca de R$ 500 a R$ 1.000, e você compra as peças aos pouquinhos, quando vai ver, poderia comprar um carro popular com o tanto que gastou com isso. Existe até um nome dado a viciados em compras de pedais: GAS, ou gear addiction syndrome”.
Feito em casa
O investimento é alto porque os melhores pedais são fabricados no exterior, especialmente nos Estados Unidos. Quem quer importar para o Brasil, acaba gastando muito com impostos – um artigo de US$130 chega aqui por aproximadamente R$800. Isso foi importante para a abertura de um novo mercado: os criadores de pedais caseiros.
Um dos principais fabricantes no país é de Belo Horizonte: Marcelo Giangrande, dono da MG Music – empresa que já vendeu até para Pat Smear, guitarrista do grupo Foo Fighters.
O mercado de equipamento “handmade” tem crescido tão bem que outros desenvolvedores têm conquistado bom espaço também. Caso da Stomp Audio Labs, empresa de Pedro Cimini e Rafael Strambi, em funcionamento na capital há três anos. Eles vendem cerca de 30 aparelhos por mês.
A dupla leva até dez meses para desenvolver o projeto de um pedal, pois procura construir um circuito eletrônico a partir do zero, em vez de copiar um já existente. “Nesse mercado, tem muitos interessados e poucas coisas de qualidade. Por isso a empresa está crescendo. Tem gente que acha que o nosso trabalho é apenas montar o equipamento, mas realizar o projeto é complexo e há muita matemática por trás disso”, afirma Cimini, que é estudante de Engenharia Elétrica.
Thiaggo Tayer diz que guitarristas de rock preferem aparelhos analógicos por causa da distorção; Rafael Zon chegou a investir R$ 6 mil nos pedais antes de chegar ao set considerado ideal (Fotos: Luiz Costa e Eugênio Moraes/Hoje em Dia)
O design dos pedais também é um atrativo
Guitarrista do Djambê, Flávio Charchar é um consumidor de pedais artesanais. “Toda vez que vou fazer um show, alguém me pergunta sobre os meus pedais, porque são bem diferentes. O problema é quando vou tocar em uma banda e esperam de mim um som mais genérico. Tenho dificuldades porque não tenho um pedal que ofereça uma sonoridade genérica”, diz.
Produtor e multi-instrumentista, Thiago Corrêa já comprou pedais para diferentes instrumentos, como guitarra, baixo e piano elétrico. Segundo ele, é difícil vencer o desejo “quase incontrolável” de colecioná-los. “O pessoal que faz pedais investe pesado em design porque sabe que, mesmo que a peça seja muito similar à de outra marca, ele pode te pegar pelo apelo visual”, explica o artista. “Existem pedais ‘vintage’que, por conta de um pequeno componente eletrônico diferente, chegam a custar dez vezes mais”. No site Mercado Livre, por exemplo, os pedais custam de R$ 700 a R$ 5 mil.
Estudo
Rafael Zon, guitarrista da banda Zonbizarro, explica que levou cerca de cinco anos para montar o set que hoje carrega para os shows e usa nas gravações do segundo disco da banda. A tarefa demanda paciência do músico porque, além de comprar os equipamentos adequados, também é preciso fazer muitas experimentações para descobrir quais são as distorções necessárias. Além disso, como os aparelhos são ligados em série, é preciso verificar a melhor forma de montá-los.
“Como tenho um estúdio à minha disposição, posso experimentar bastante, mexer na ordem do set. A soma dos efeitos é única”, explica Rafael Zon. “Antes de gravarmos nosso primeiro álbum, ‘Brisa’, nós passamos horas e horas na pré-produção, testando efeitos em guitarra e baixo, para que houvesse uma harmonia entre os dois instrumentos”.
Na internet
Quem já tem uma guitarra e planeja começar a adquirir pedais, a dica é visitar o site Pedais & Efeitos (pedaiseefeitos.com). Lá são publicadas postagens sobre lançamentos do mercado, resenhas com avaliações sobre produtos e marcas e artigos com temas relevantes para facilitar a vida dos músicos.
“O Pedais existe há quatro anos. Criei porque sentia falta de um site em português que abordasse o tema e servisse como fonte de pesquisa e informação para os guitarristas brasileiros”, diz o editor Leo Ximenes, sobre a iniciativa que costuma atrair iniciantes e músicos profissionais.