
A atual temporada de Marina Abramovic ao Brasil – trabalhos da cultuada artista sérvia ocupam, até maio, o Sesc Pompeia, em São Paulo, dentro da mostra “Terra Comunal – Marina Abramovic + MAI” – pode até ser vista como uma espécie de “cereja do bolo”, mas não responde 100% pelo fato de a arte das performances estar registrando um momento mais do que especial no Brasil, nos dias atuais. E Belo Horizonte, claro, não foge à regra. Neste sábado (21), por exemplo, o Edifício Arcangelo Maletta se transformará em uma espécie de epicentro da performance. Das 10h deste sábado (21) às 3h deste domingo (22), estão previstas nada menos que 33 intervenções, feitas por nada menos que 49 artistas, nos espaços associados: Galeria 4Y25, Piolho Nababo, ÿstilingue, Bar do Olympio, Lua Nova, Objetoria, Brechó da Nilza, Trecos e Afetos, Apto 401 e Nine. A iniciativa é do projeto Vespa – Via de Experimento em Performance e Ação, conduzido por Paula Campos e Carolina Botura.
“O embrião do projeto surgiu ano passado, quando um grupo de artistas, como Vagner Rossi, desenvolveu um projeto perpendicular de atravessamento dos espaços da Bienal de Arte de São Paulo – não no sentido de enfrentamento, e sim de apresentar sugestões”, explica Paula, para quem a palavra “questionamento” merece estar sempre em voga. Não por outro motivo, ela espera que a iniciativa deste sábado (21) atraia não só habitués do universo das performances, mas um público neófito (no ótimo sentido). “Temos o desejo de abrir uma via que possibilite a abertura de outras, de modo a possibilitar que muitas pessoas sejam tocadas”, diz.
Mais do que a maratona deste sábado (21), o universo das performances também já invadiu salas de aula de instituições como a PUC Minas, que oferece um programa de pós-graduação e especialização na área.
Manifestação é tema de pós-graduação na PUC Minas
Nomes calibrados da cena contemporânea de Belo Horizonte, como Rui Moreira, Dudude Herrmann, Marise Dinis, Sérgio Penna, Ana Luísa Santos, Júlia Panadés, Thembi Rosa, Christina Fornaciari e Wagner Rossi integram o corpo docente – composto por 19 professores – do curso do programa de pós-graduação e especialização em performance da Puc Minas.
Os cursos foram idealizados pela coordenadora, artista de dança, performer e mestre em artes visuais, Paola Rettore. “O curso é muito para cutucar, abrir olhares. E a especialização em um tempo mais alongado é muito interessante para o lado criativo de cada um, para ir experimentando, rasgando... Há um debruçamento sobre o tema... Mesmo porque tem assunto que não acaba mais (dentro do universo da performance)”, diz Paola.
A performer conta que ministrou um curso cuja finalização aconteceu no final de 2013. “E os alunos estão todos aí, mostrando seus trabalhos no Chile, na Alemanha, em Nova York, alguns em BH... Gente como os integrantes do coletivo Muda”, orgulha-se ela, para quem a performance é, ainda, uma arte facilitadora em tempos atuais. “Você pode trabalhar sozinha ou em coletivo, usando tecnologia ou não... Além disso, agrega artistas de várias áreas, da poesia, da fotografia, da dança, do teatro, das artes visuais...”.
Um bom exemplo é o poeta Wilmar Silva de Andrade, que já contabiliza 20 anos de performances. “Nos últimos cinco anos, o crescimento é absurdo. A chegada do terceiro milênio abriu uma outra perspectiva à performance. Ela recepciona a condição humana”, avaliza.
Anos atrás, admite Wilmar, suas performances por vezes causavam estranheza. “O simples fato da ocupação do espaço público já causa uma estranheza. Hoje isso está atenuado, há um desejo, as pessoas procuram pelas apresentações”. Há 15 dias, ele fez uma performance de poesia dentro de uma programação de música erudita. “O público foi espontâneo, tínhamos praticamente cem pessoas. Há dois, três anos, isso era inimaginável”, explica.
Tem mais. Entre os dias 9 e 12/4, a 11ª SP-Arte, contará com um setor dedicado a performances. “Essa produção nunca foi a protagonista do mercado, mas, de 50 anos pra cá, vem crescendo e todos estão de olho neste fenômeno, por que os outros meios de arte já estão, digamos, estabilizados”, diz Cauê Alves, curador assistente do Pavilhão Brasileiro da Bienal de Veneza 2015 e professor do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo.
* Colaboraram Patrícia Cassese e Cássio Leonardo