"Pianos para todos" chega ao final de 2013 com instrumentos destruídos

Elemara Duarte - Hoje em Dia
Publicado em 17/12/2013 às 08:47.Atualizado em 20/11/2021 às 14:51.
 (Marcelo Prates)
(Marcelo Prates)

“Foi um grand finale”, diz Gabriel Guedes. O músico se refere ao desenlace – ao menos provisório – de um projeto que comoveu uma parcela considerável da população belo-horizontina: o “Piano na Praça”. Nas últimas semanas, quem passa pela avenida Bernardo Monteiro, no bairro Santa Efigênia, não pode deixar de lamentar o estado de degradação do instrumento, agravado pelas chuvas.

Mas Guedes, um dos mentores da iniciativa, mantém o otimismo. “Eles já estavam meio deteriorados (quando foram disponibilizados à população). Ao invés de apodrecerem numa garagem, acabaram no meio do povo. E o tempo que resistiram, deram alegria a muita gente. Eu mesmo fiz ensaios com o Toninho Horta em um. Cheguei a ver um gari tocando Beethoven”, anima-se ele, revelando que, em 2014, o projeto pretende ampliar sua atuação.

A readequação já começa pelo nome, que passa a ser “Piano para Todos”. Os organizadores querem driblar os traumas provocados pelo vandalismo urbano e planejam levar os instrumentos a mais dez bairros. Três pianos já comprados serão instalados “fora de Minas”: um, na Praça São Salvador, no Rio de Janeiro, e dois, na capital paulista – um no Museu do Ipiranga, em local, como manda a tradição da iniciativa, de amplo acesso.

Os pianos para o Rio e São Paulo já estão comprados. “Agora, teremos um cuidado maior. Vamos entrar na lei de incentivo e estamos negociando parcerias com empresas”, avisa Gabriel. Até agora, o artista vinha bancando o projeto. Em BH, a primeira adesão é da TV BHNews, com quem Guedes está formatando o projeto da nova fase. O diretor da emissora, Marcilio Soares de Souza, destaca o retorno de mídia alternativa que o projeto teve neste 2013. “É uma maneira de a gente participar da vida da cidade. Cada piano vai homenagear um artista brasileiro: Ernesto Nazareth, Villa-Lobos... Vamos colocar uma câmera escondida em cada piano, captar a reação das pessoas. Não é pegadinha. É para captar a emoção e disponibilizá-la na TV”.

Recentemente, Guedes se reuniu com a Belotur e a Fundação Municipal de Cultura. A assessoria da Belotur confirmou o apoio ao projeto e deve intermediar a liberação dos locais nos quais os instrumentos serão instalados.

Morreu na glória

Desta vez, Guedes e equipe preveem o acondicionamento dos instrumentos em uma estrutura de metal e numa caixa de acrílico, onde serão protegidos das intempéries. Em Santa Tereza, o posto de um dos instrumentos já está vago há algum tempo. “Quem sabia tocar, tirava um som bacana”, comenta um morador. Na Bernardo Monteiro, desolação. “O que me deixa mais triste é que as coisas boas e simples que acontecem na cidade caem no descaso”, critica Márcio Roberto de Souza, que trabalha na região. “Você se lembra daquela praça? Que praça? Caiu no esquecimento”, completa Marcus Aurélio de Souza, também flagrado pelo Hoje em Dia lamentando a destruição do instrumento.

Belo Horizonte recebeu pianos em mais três lugares. Nas praças da Savassi, do Papa e a 7. “Mas todos foram destruídos”, contabiliza Guedes, que também trabalha como luthier. O que seria um “termômetro da sociedade”. “Isso serviria de estudo sobre a psique humana”. Inicialmente, Gabriel transportava o próprio piano como forma de protesto, na Praça do Papa e na Rua Rio Doce, onde morava, entre os bairros Serra e São Lucas. “Coloquei o piano na rua, chamei amigos para tocar e para protestar contra o número de assaltos na região”.

Vandalismo diverso

O piano da Praça 7 foi o que durou mais, até que o da Savassi, região na qual o senso comum pressupõe ser frequentada por pessoas “mais esclarecidas”. O motivo seriam as câmeras espalhadas pelo Centro? Mudanças de paradigma? As modalidades de agressões sofridas também foram diversas: destruição dos martelos (peças internas junto às teclas), pichação ou quebra do móvel.

Mas a pior “agressão”, para Guedes, veio justamente de um artista plástico, no Santa Tereza. “Pintávamos o piano de branco e dávamos guaches para as crianças desenharem. Um dia, vi este artista cobrindo o que as crianças tinham feito, impondo sua arte”, lamenta. A segunda fase do projeto, Guedes prevê que comece, citando Tom Jobim, depois que as “águas de março fecharem o verão”. E quem quiser doar ou vender um velho piano a um precinho camarada pode entrar no perfil “Piano na Praça” no Facebook. Gabriel diz que é possível fazer a alegria de uma praça com um piano idoso, mas que ainda dê conta do recado musical, a partir de R$ 500. 

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