
24 horas é um tempo curto demais para Cláudio Alcântara, o Xerel, conseguir resolver todo seu dia. Entre um corre-corre e outro, o artista belo-horizontino fez malabarismo para conseguir conversar com a reportagem: tanto que improvisou almoço enquanto dava forma e cor a novos trabalhos e ainda tentava resolver o problema do celular que, assim, do nada, não queria funcionar direito. Como se todo o caos parecesse adivinhar a semana em que prepara a inauguração da sua nova mostra.
O “artista de rua”, expõe a partir do próximo dia 8, na Chimera Cultural, umas das mais recentes galerias da cidade (saiba mais sobre o espaço e a mostra no box ao lado). Nela o público terá a oportunidade de conferir a potência da obra de Xerel, construída ao longo dos anos.
A exposição apresenta trabalhos especialmente elaborados para uma galeria de arte: com direito a suporte tradicional (tela), além de objetos construídos com material encontrado nas ruas da cidade.
De Xerel, muitos dos que caminham a pé pelas ruas da cidade conhecem um pouco. E nem é preciso ser expert em artes visuais para identificar seu trabalho: é bem provável que o leitor já tenha visto, por aí, uma carinha toda simpática, que parece ter saído de jogos antigos de computador, colada nos muros, orelhões, caixas de energia, postes e portões.
Um trabalho que disputa espaço e atenção com os grandes anunciantes, e que suscita curiosidade em torno do seu significado. “Minha vida tem ligação com a rua, e desde criança. Já na adolescência fui muito ligado à musica e aos movimentos de rua, como bike e skate. É daí que meu trabalho se alimenta. E estou longe de dizer que me vejo como artista. Apenas faço o que gosto, só isso”.
Por vários artistas de rua, Xerel é reconhecido como um dos mais antigos e atuantes nomes do segmento de Belo Horizonte. Seus “lambes” (pôsteres para serem colados na paisagem urbana) têm como referência o grafite e, segundo ele, a assinatura nasceu da necessidade se expressar.
“Na década de 1990, recebi o convite do dono de uma loja de hip hop em São Paulo para fotografar o que estava acontecendo com o grafite em BH. Foi quando passei a fazer ímãs para um lançamento de uma revista que ele ia editar. A partir desse trabalho, e de passar a conhecer várias pessoas, resolvi fazer parte desse universo assinando um rosto quadrado em todos os lugares e colando vários pôsteres por onde andava”, revela o artista, de 44 anos. Já o apelido surgiu em 2008, quando sua obra serviu de objeto para o livro “Na Rua: Pós-Grafite, Moda e Vestígios”, organizado pelas pesquisadoras Cássia Macieira e Juliana Pontes.
O livro relacionava a presença do personagem a uma espécie de “vigilância urbana” – o que o fez ser conhecido também como “vigia”.
Chimera ali na Praça
Bem ali, na Praça da Liberdade, está instalada a galeria de arte Chimera Cultural (av. Cristóvão Colombo, 631). Inaugurado neste ano, o espaço é uma iniciativa do jornalista e colecionador Alberto Hermanny Filho.
O lugar ocupa uma casa tombada pelo Patrimônio Histórico, ao lado do Palácio da Liberdade. Segundo o idealizador, a missão é divulgar, promover e difundir a produção contemporânea, de artistas emergentes e estabelecidos.
A proposta, de acordo com Hermanny, é dar à casa um norte que vai além do ser um espaço expositivo. A galeria se propõe como uma alternativa à rigidez dos espaços tradicionais dedicados à arte, incentivando novas ideias e discursos, com foco em diversas plataformas: da pintura às novas mídias. A Chimera Cultural funciona de segunda a sábado, das 14 às 20h. A mostra de Cláudio Alcântara, o Xerel, ou Vigia, fica em cartaz até 11 de novembro.