
As revistas que escrevia “ainda molequinho, aos quatro, cinco anos” (com enredo, personagens, desenho no capricho), já davam pinta do artista precoce. E o prognóstico se confirmou: Leonardo Fernandes é um dos mais reconhecidos atores da cena mineira. Sem dúvida, o mais jovem dentre os maiores.
Praticamente emendando um trabalho no outro, Leo volta à cena novamente: desde o início do ano, se instalou no Rio de Janeiro para os ensaios da nova montagem dirigida por Carlos Gradim. É aguardar.
Ainda sem título e elenco ainda indefinido, o espetáculo tem estreia prevista para este semestre, em Belo Horizonte. Teve recursos da Oi para sessões também em São Paulo e Rio. De novo, o texto será de Edmundo de Novaes Gomes, como noutras montagens de Gradim - radicado no Rio desde abril de 2012, onde administra o Museu de Arte do Rio, que inaugura agora em março, como parte do projeto de revitalização do Porto.
É o primeiro trabalho entre ator e diretor: “Fui seu professor durante um ano, no (Cefar) Palácio das Artes, e sempre admirei sua entrega e inquietação como ator. Claramente ele se destacava na turma pela atuação sincera, pela entrega visível. É talentoso, disciplinado e de fácil acesso. E tem um tipo de atuação que se assemelha à do Selton Melo”, enche a bola o diretor.
Morte e desejos
Já a peça, adianta Gradim, seria uma releitura de “Homem Comum”, de Philip Roth: “Fiquei impactado ao ler, me vi no narrador. Vamos falar de finitude, morte, memória e desejos. De nossas escolhas ao longo da vida, principalmente, como algumas escolhas traçam nosso destino”, adianta.
Na trama, três atores de idades diferentes interpretam um homem – Leo aos 25, sua idade, e os outros dois atores aos 42 e aos 70 anos – e se encontram no próprio velório. Falam da vida e das memórias do seu próprio tempo. Gradim aguarda respostas dos atores que concorrem aos outros papéis.
Em meio ao calor “exagerado” do verão carioca, Leo aproveita para ir à Globo renovar sua disposição para convites. Mas se considera velho para a TV, talvez “não seja o momento”. Modesto, desconfia que não faria bem e nem gosta da ideia de viver no Rio. Prefere o teatro, o cinema (atua em três longas que estreiam este ano), morar em Sampa ou BH. Mas jamais fecha portas. Deixa a vida e seu talento, reconhecido por prêmios, o levarem.
Grato ao Galpão pelo papel que não lhe coube
“Heróis”, incursão do cineasta Guto Aeraphe na participação de pracinhas na II Guerra. Leo Fernandes fazia um dos personagens do média-metragem também explorado como websérie. Uma das suas mais notadas atuações no cinema, que somam oito curtas.
Este ano, Leo pode estar nas telas em três longas: “Deserto Azul”, de Éder Santos; Mustah”, título provisório do novo filme de Guto, que terá algumas cenas rodadas no Haiti; e “Fora de Ordem”. Pronto em 2010, o filme de Sérgio Gomes ainda não experimentou o circuito comercial.
Apesar dos compromissos que deve assumir com os filmes, com a montagem no Rio, Leo espera voltar com “Coisas Invisíveis” (foto ao lado). Integrou o elenco desta oportuna reedição do maior sucesso nos dez anos de vida da Cia Clara. Nela pôde conjugar novamente a brincadeira e a diversão - estados que o vinculariam mais aos trabalhos que abraça, obviamente sem nunca descuidar de ser sério. Já que é sempre muito responsável com tudo aquilo em que se envolve.
Aliás, nunca confundiu estações. Evangélico até os 15 anos, Leo foi aprender teatro após ter aulas de violão e bateria. Na fila de inscrições para o curso de trompete, oferecido pela prefeitura de Vespasiano, onde vivia, um amigo lhe garantiu que “o pessoal do teatro era muito legal”. Foi o que bastou para querer aulas com Marcelo do Valle, “um dos melhores professores que já tive na vida”, assegura.
Beckett, ionesco
Foi dirigido por Marcelo, notável ator e diretor, em quatro das 11 montagens que o levaram ao palco até hoje. Também foi dirigido por Rita Clemente, Wilson Oliveira, Eid Ribeiro, Anderson Aníbal e Lenine Martins. Interpretou autores tão distintos quanto Beckett, Shakespeare, Ionesco (autor de “Rinocerontes”, peça de formatura no Cefar), Ziraldo, Plínio Marcos, Dias Gomes e Letícia Andrade. Talentoso até, já obteve três prêmios e duas indicações.
Por exibir qualidade e versatilidade em personagens e linguagens muito distintos, mobilizou as atenções no meio artístico. Mas se diz surpreso por ser convidado para o novo espetáculo do grupo Galpão, “Os Gigantes da Montanha”, do Prêmio Nobel de 1934, Luigi Pirandello. O diretor, Gabriel Villela, no entanto, preferiu escalar Luiz Rocha no papel. “Mas já fiquei feliz e comemorei demais só por ser sondado. É um grupo que eu super respeito”, garante ele.