
Marco Tulio Resende poderia até não ter se envolvido na produção do livro que leva o nome dele – e que será lançado neste sábado (28), das 11h às 14h, na galeria Celma Albuquerque. Mas não foi bem assim. “Acompanhei o tempo inteiro. Foi tudo muito pensado. Não quis fazer um livro de ‘artista morto’, mas que retratasse o processo de criação artística”, diz ele, reforçando que a ideia central era retratar a dinâmica de criação do “artista vivo”.
O livro leva a chancela da C/Arte, que vem se especializando em registrar a história da arte visual mineira. Um dos chamarizes do trabalho é o capítulo “O Inventário do Abandono”, que registra uma estante, de dez metros, na qual o artista – nascido em 1950 – guarda inúmeros objetos. O hábito começou na infância.
“O que é abandonado me interessa. Não somente a coisa em si, mas a transformação que representa. A transformação das coisas abandonadas constrói a consciência poética”, explica o artista.
“As pessoas vão largando coisas e se esquecem de manter um diálogo com as memórias. Não as memórias somente afetivas, as que são o instinto de sobrevivência”, acrescenta.
Quem manusear as fotos do livro vai ver imagens de santos, pinguins e utilitários antigos (leques, aparelhos telefônicos ou um secador de cabelo). Instado a falar se tem algum objeto preferido em meio a tantos recolhidos em sua trajetória, ele desconversa.
“O conjunto é que me chama atenção. Ao longo do trabalho, as coisas vão e voltam, e é isso que a arte é, uma espécie de saco de pancadas, no qual você coloca suas angústias e sonhos. A arte, para mim, é meio...meio de responder às coisas que me movem”.
Tempo presente
Com mais de quatro décadas de bons serviços prestados à arte, Marco Túlio – que, cumpre dizer, transita por vários formatos – diz que gosta de retratar o que está acontecendo na sua vida no momento.
“Nas obras mais antigas não havia muitos traços da retratação do corpo humano. Mas, após um acidente, 20 anos atrás, fiquei três meses em cadeira de rodas e, a partir daí, comecei a pensar no corpo humano e em suas limitações. E isso começou a se refletir em minha criação”.
Resende começou a retratar, por exemplo, cicatrizes. “Às vezes eram obras muito abstratas”, diz, lembrando que nem sempre o espectador se inteirava imediatamente do que estava vendo.
* Colaborou Cássio Leonardo/ Especial para o Hoje em Dia