
A poesia de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) não para de ganhar vida. Agora mais fôlegos para ela saem das latinhas de spray de dez grafiteiros participantes da exposição “Arte Favela”. A sexta edição do projeto começa a rodar pelos becos de cinco comunidades de BH a partir deste domingo (19), com grandes telas, de 1,40 metro por 2 metros, expostas ao longo das vielas. Duelo musical e bate-papo também completam os eventos.
“Os meninos já trabalham com a poesia do rap, por isso foi fácil entrar com esta linguagem”, conta o coordenador do projeto, o grafiteiro e artista plástico Hely Costa. Mas para fazer o mergulho na obra de Drummond foi organizada uma oficina com uma professora de literatura para mostrar as principais eixos da obra do escritor aos grafiteiros.
“Eles leram alguns poemas. Mas não são textos tão simples quanto a gente pensa. Depois que começaram a entendê-los, viram que as obras de Drummond tinham um significado maior”, indica Costa.
Esta não é a primeira vez que o mundo dos livros é abordado neste formato de projeto de “street art” criado em BH. Em edição anterior, o escritor e jornalista Murilo Rubião (1946-1991) também foi homenageado nas telas.
Depois de expostas, as telas de “Arte Favela nos Becos – Releituras das Obras de Drummond” poderão ser vendidas. As obras também são fotografadas e estas imagens viram cartões postais, que são distribuídos gratuitamente nos eventos.
Além da exposição, o evento de domingo do Arte Favela terá a apresentação de um "duelo musical", mas de conhecimento gerais, e com a batida do funk.
Corações também saem do spray
Morador do bairro Renascença, Região Nordeste de BH, o grafiteiro Rodrigo Scalabrini, o “Kaos”, escolheu o poema “Mundo Grande” (do livro "Sentimento do Mundo", 1940) para se inspirar: “Não, meu coração não é maior que o mundo./ É muito menor./ Nele não cabem nem as minhas dores./ Por isso gosto tanto de me contar./ Por isso me dispo,/ por isso me grito,/ por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:/ preciso de todos”. Eita, Drummond, que vai no alvo do afeto!
“Fiz um comparativo com o que a gente vive em relação aos sentimentos. As pessoas estão envolvidas com a rotina diária e esquecem de se socializar”, explica Scalabrini, que fez um coração com um sentimento de “solidão” o cercando.
O artista diz que uma das propostas do grafite na rua é justamente esta necessidade de se expressar e de entrar no cotidiano das pessoas. “Uma hora a pessoa presta atenção no desenho”, espera, em relação aos cidadãos apressadinhos. Nos últimos meses, Scalabrini tem desenhado uma série de corações em paredes de BH.
Um deles está em uma das saídas do Hospital São Francisco, no bairro Concórdia, Região Nordeste de BH. “Queria fazer um coração Brasileiro neste. E este tem uns remendos. Isso quer dizer que o brasileiro não para nunca, mesmo que sofra”, explica.
Outro coração está sendo desenhado na Associação de Proteção e Assistência ao Condenado (APAC), de Santa Luzia, na Região Metropolitana de BH. O projeto mostra mais um coração, porém, dividido: metade vermelho, o lado certo; e a outra metade, em preto, branco e cinza, ou seja, mais amargurado. “Todo ser humano tem escolhas. E ele pode seguir tanto pelo lado ruim quando bom”, ensina.
E na exposição...
SERVIÇO
Cronograma da exposição “Arte Favela nos Becos – Releituras das obras de Drummond”:
Dia 19/07 - Beco Epaminondas Otoni, Cabana do Pai Tomás
Dia 26/07 - Vera Cruz
Dia 2/08 - Conjunto Felicidade
Dia 09/08 - Serra
Dia 16/08 - Goiânia (Vila Presid. Vargas)
Mais informações sobre as próximas paradas da exposição, em breve no: www.artefavela.org