
No início dos anos 60, uma família de 18 filhos saía da interiorana Bom Despacho, no Centro-Oeste de Minas, para fazer a vida na capital das Gerais. Dificuldades não faltaram. A comida era posta à mesa depois de muita água – proveniente da única bica do bairro Santa Tereza – enxaguar as roupas da “freguesia” de “Dona Maria Guerreira”, conta Elder Pacheco, 58 anos, um dos herdeiros desta “grande mulher”. “Tenho saudades daquela BH antiga, dos bondes, das carroças, do subúrbio, das brincadeiras com bolinhas de gude, do cinema na praça de graça todo sábado”, recorda ele, que é consultor de políticas públicas.
A história de Elder é filmada e fotografada pelas lentes do projeto “Moradores – A Humanidade do Patrimônio Histórico”, dentro de uma tenda branca, montada em plena a Praça 7 – um dos pontos mais democráticos de BH, onde passam pessoas de diferentes ideologias e classes sociais.
O privilégio de resgatar as lembranças remanescentes, no entanto, não será apenas do Elder. Desde esta quarta-feira (1), até o próximo dia 8, todos os moradores de Belo Horizonte estão convidados a revelar as suas recordações. Posteriormente, este memorial vai alimentar uma exposição multimídia, formada por 14 grandes painéis, a serem exibidos na Praça da Liberdade, no dia 21 deste mês.
A Proposta
O jornalista Gustavo Nolasco, do coletivo NITRO + Alicate e um dos idealizadores do projeto, esclarece que trata-se de uma ação de educação patrimonial e manifesto de ocupação urbana pela valorização das identidades culturais e da memória das pessoas como patrimônio imaterial singular.
“A ideia nasceu em 2012, em Tiradentes, durante um festival de fotografia em que nós estávamos participando. Percebemos que faltava memória ali, porque as pessoas foram ‘meio’ que expulsas para o subúrbio, para dar lugar a uma cidade turística”, explica.
A proposta deu tão certo, que acabou percorrendo outras noves cidades: Paraty (RJ), Campinas (SP), Petrolina (PE), Juazeiro (BA) e as mineiras São João del-Rei, Ouro Preto, Mariana, Juiz de Fora e Diamantina. Depois de BH, o projeto irá estender as suas tendas em Ipatinga e Itatiaiuçu.
“Acho que estamos conseguindo atingir o objetivo de criar uma marca nos moradores e nesses locais, onde a própria identidade está se perdendo. E acreditamos que o conceito de defender a memória das pessoas se aplica a qualquer cidade do Brasil, porque todo lugar tem o seu povo e a sua história para contar”, destaca.
Todo mundo tem uma história para contar...
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