
Carro-chefe de muitas atrações matinais da telinha desde 1958, a culinária vem galgando novos patamares – e invadindo o horário nobre das emissoras. Os reality shows, que já angariavam fãs nos canais fechados, adentraram a TV aberta – e ao que tudo indica, a febre está longe de ser passageira. Prova é que o SBT estreia hoje mais um programa dedicado a este nicho, o “Bake Off Brasil – Mão na Massa”, uma disputa entre confeiteiros.
Unir jogo e comida é o grande trunfo desse formato, na opinião do economista e professor universitário Fabiano Santos, 36 anos. Amante dos temperos, ele – que chegou a cursar parte da faculdade de Gastronomia – é um dos milhares de brasileiros que ficam vidrados nesse novo modo de levar a culinária à televisão.
Apesar de não ter muitas habilidades com sobremesas, o economista acompanha programas sobre o tema, como o reality “Que Seja Doce”, do GNT. “Os chefs fazem críticas construtivas e são gentis. Embora não goste de fazer sobremesa, acho bonito quem faz, e as invenções de sabores são interessantes”, justifica Fabiano, que cita o episódio no qual o participante utilizou wasabi (a raiz forte da culinária japonesa) em um doce. “Já quero fazer brigadeiro com wasabi. O programa me inspira”, comenta.
Prazer a dois
Além do reality do GNT, ele também assiste ao “MasterChef”, da Band, líder de audiência nas noites de terça. “Comecei assistindo ao ‘MasterChef’ na Austrália, porque queria aprender o idioma quando estava lá, em 2013. Como era um assunto do qual gostava, era mais fácil”, rememora Fabiano, que divide esse costume com a namorada Juliana Nogueira, 36.
Mineira de Ponte Nova, a moça é formada em Gastronomia e está à frente de uma confeitaria na cidade. “Gosto de ver as pessoas sob pressão. Algumas são bem estruturadas para suportar, outras não”, justifica a chef, que aplica em suas receitas dicas que viu nos programas. “Sempre que vejo algo interessante conto para o Fabiano. E quando estamos juntos, assistimos aos programas”, relata Juliana, que tinha o costume de assistir ao reality americano “Cake Boss”, que vai ganhar a versão brasileira “Batalha dos Confeiteiros”, na Record. Serão dez episódios, dos quais sete já foram gravados, segundo a assessoria do programa, previsto para estrear em setembro.
Mas essa não é a primeira vez que a TV brasileira vive a fase de apostar em reality shows de culinária. O “Mais Você”, comandado por Ana Maria Braga, promoveu, em 2008, o quadro “Super Chef”.
Língua afiada
Os comentários afiados e por vezes cruéis dos chefs são vistos por Juliana como algo meramente teatral. “Os norte-americanos são bem piores que os brasileiros, mas dão muitos conselhos”. Já Fabiano se sente por vezes incomodado. “É muito cruel com pessoas que não são profissionais. Infelizmente, é uma prática comum. Quando trabalhei como auxiliar de cozinha na Austrália, os chefs gritavam e tinha muita pressão”, relata o economista, para quem o ato de cozinhar deve ser feito com amor. “Acho que toda essa pressão e correria acabam sendo passadas para a comida”, pontua. Mas não, isso não faz com que o casal deixe de assistir aos programas. Definitivamente.
Programas inspiram cozinheiros de plantão
Os números referentes às competições ligadas à culinária realmente impressionam. O “MasterChef Brasil” lidera há nove semanas consecutivas o Ibope Twitter. Segundo o ranking, somente na última semana foram registrados 19 milhões de comentários sobre o reality da Band na rede social.
Para Paulo Gomes, 52 anos, professor de Comunicação Social que se dedica a estudos sobre o comportamento do telespectador, o formato faz sucesso por se assemelhar a um “game”. “Jogos na telinha sempre fizeram sucesso, e aliados à culinária, que já é consagrada, vira um casamento perfeito – ainda mais que traz um apelo emocional grande, pela tensão que causa no público”, avalia.
Para ele, os realities se casam bem com o momento “gourmetização” que vivemos atualmente. “Esses programas mostram temperos e ingredientes muitas vezes desconhecidos pelo grande público, o que causa fascínio. É diferente das tradicionais receitas de programas como o da Palmirinha e da Ana Maria Braga. É para um público cada vez mais exigente”, considera.
Cômico
O administrador Alexandre Moreira, 25 anos, concorda. “Eles não mostram de fato como fazer o prato. Mas já aprendi várias expressões que não conhecia, como ‘reduzir algum alimento’”, conta o jovem, que não perde um dia de “MasterChef”. Toda terça-feira ele fica entre a TV e o celular, pois comenta tudo em tempo real com amigos, nas redes sociais e também pelo WhatsApp. “Na última terça, estava tendo uma festa em minha casa. Em certo momento, pedi licença aos convidados e fui para o meu quarto assistir ao programa”, confessa. “O fato de serem três jurados influentes me prende. Gosto de ver a reação deles e dos participantes. Eu dou gargalhada, xingo e torço pelos competidores”, conta o moço, que por vezes acha cômico os comentários ácidos dos chefs. “Não sei até que ponto é tudo verdadeiro ou jogo de cena. Mas tem horas que é tão exagerado que chega a ser engraçado”, relata.
O administrador Alexandre Moreira fica plugado nas redes sociais durante o programa. Foto: Luiz Costa / Hoje em Dia
Mão na massa
Apesar de não ter nenhuma empatia com a cozinha, a farmacêutica Pamela dos Santos, 29 anos, acompanha vários realities, como “Cozinha Sob Pressão”, “Hell’s Kitchen”, “Cozinheiros em Ação” e “MasterChef Junior”, e acabou desenvolvendo algumas habilidades culinárias.
“Antes fazia somente macarrão instantâneo. Mas esses programas despertaram a minha curiosidade, e vi que é possível cozinhar algumas coisas mais sofisticadas de forma prática”, comenta a jovem, que parou de almoçar em restaurantes nos finais de semana para colocar em prática o que aprende com os programas.
363 mil é o número de vezes que o programa “masterchef” foi mencionado no twitter na última terça-feira
No último ano, a grade de programas culinários na TV aumentou 38%, segundo levantamento feito pelo Ibope