Moacyr Góes é um diretores mais ativos do cinema brasileiro, ostentando a marca de 12 longas-metragens em apenas dez anos no ofício. É também um dos alvos preferidos da crítica, que enxergou mais pontos negativos do que positivos em trabalhos como Filho de Deus”, “Xuxa e o Tesouro da Cidade Perdida” e “Destino” (exibido no Festival de Paulínia de 2009, ainda permanece inédito no circuito comercial).
“Não tenho como característica renegar os filmes que fiz ou cuspir no prato que comi. Tudo que fiz foi com a maior convicção. Jamais fui obrigado a fazer nada. Achava que, fazendo esses filmes, iria aprender muito”, ressalta o realizador, que começou no teatro, foi para a televisão e agora é o diretor predileto de Diler Trindade, produtor de todos os seus longas – o mais recente é “Bonitinha, mas Ordinária”, em cartaz nos cinemas.
Ao lado dos atores Letícia Colin e Gracindo Jr., os dois estiveram presentes na exibição dessa nova adaptação da peça de Nelson Rodrigues no Cine PE, em Recife, no final de abril, pouco antes da estreia nacional. Na noite de premiação, somente João Miguel foi lembrado, ganhando o troféu Calunga de melhor ator pelo papel que um dia foi de José Wilker no filme de 1981, assinado por Braz Chediak.
O fraco desempenho nas bilheterias (pouco mais de sete mil espectadores no primeiro final de semana) não desanima a dupla, que pretende levar para as telas outro texto de Rodrigues, “Perdoa-me por me Traíres”. Góes reconhece que assinou filmes irregulares, mas vê em “Bonitinha” a chance de fazer algo que, artisticamente, tem “a sua cara”. Sua intenção foi tirar o ranço sobre o texto, “que virou um entulho na obra dele”.
O diretor lamenta que “Bonitinha”, escrito em 1962, tenha sido vinculado à erotização exacerbada. “A beleza de Nelson está num paradoxo, levou a fala das ruas para o palco, mas com uma construção profundamente elaborada”, assinala Góes, que depositou nos atores esse acerto de contas com o texto original. “Transformamos em linguagem a experiência emocional dos ensaios”.
Testes e toques
Moacyr Góes confessa que teve que “segurar a onda” dos atores na busca do verdadeiro Nelson. Teve cuidado principalmente com a estreante Letícia Colin. Ela faz o papel de Maria Cecília (Lucélia Santos, na versão de Chediak), pivô da decadência de uma família burguesa. Supostamente violentada por cinco homens, leva seu pai a “comprar” um marido (João Miguel) por R$ 5 milhões.
“Com 18 anos na época das filmagens, filha de professora e de família católica, interpretar Maria Cecília me fez dialogar com questões internas, como a virgindade e a sexualidade”, admite Letícia. Quando fazia testes para a personagem, Góes deixou claro para as candidatas que deveriam ficar nuas em cena. “Foi delicado, porque fiz testes de nudez também. Avisei que, se tivessem um problema em relação a isso, seria melhor desistirem”. (PHS)