Representante brasileiro em Berlim, “Praia do Futuro” estreia nesta quinta nos cinemas

Paulo Henrique Silva - Hoje em Dia
Publicado em 14/05/2014 às 07:26.Atualizado em 18/11/2021 às 02:34.
 (California)
(California)

“Não sei como cheguei a esse lugar, mas estou feliz por ter chegado”, observa o diretor Karim Aïnouz, quando o repórter do Hoje em Dia registra, já no final da entrevista, a reação de entusiasmo de alguns críticos de cinema após uma sessão privê do filme “Praia do Futuro”, cartaz a partir desta quinta-feira (15) nas salas do país.

O realizador cearense de obras premiadas como “Madame Satã” e “O Céu de Suely” tem propósitos muito claros por trás de cada projeto, mas incentiva os interlocutores a fazerem suas próprias interpretações. “É meio arriscado produzir um filme com tantas camadas, mas meu desejo sempre foi o de criar leituras múltiplas”, assinala.

Na história de Donato (Wagner Moura), um salva-vidas que trabalha na Praia do Futuro, em Fortaleza, e resolve abandonar tudo para viver seu amor na Alemanha, Aïnouz concorda que o personagem tem um quê de Dom Quixote ao lutar solitariamente contra moinhos de vento numa guerra em que vitórias e derrotas se equivalem.

Moinhos de Vento

“Com imagens de geradores eólicos e helicópteros, além de uma torre alemã que nos remete a um moinho, esse lado quixotesco realmente está presente em Donato na maneira como se reinventa do zero depois de viver uma tragédia. O filme está sempre falando de perdas e ganhos”, analisa.

O clássico personagem de Cervantes salienta, a certa altura do livro, que “as coisas da guerra, mais que outras, estão sujeitas à mudança contínua”, aspecto que sintetiza a trajetória do salva-vidas. “O que me interessa é mostrar essa energia vital que leva uma pessoa, pelo preço que for, a se perder no mundo”.

Esse lado aventureiro carrega muito da personalidade de Aïnouz, que, antes de atingir a maioridade, já tinha iniciado a sua caminhada pelo mundo, passando por Brasília, Rio de Janeiro, Nova York, Paris e Berlim. “Tenho esse desassossego, esse incômodo que meus personagens encarnam ao buscarem sair da zona de conforto”, afirma.

Há cenas tanto na ensolarada Fortaleza quanto na fria Berlim

“Praia do Futuro” é dividido em três capítulos, sendo os dois primeiros dedicados à apresentação de Donato a seu novo amor, Konrad (o alemão Clemens Schick), piloto de motocross que convence o brasileiro a trocar a ensolarada Fortaleza pela high-tech Berlim.

A mudança de ambiente é dolorosa e os fantasmas de sua “outra vida” reaparecem na figura do irmão, Ayrton (Jesuita Barbosa, uma das revelações do cinema nacional), que se torna o protagonista na terceira parte do filme, evidenciando uma grande fúria interior que desestabiliza a então já confortável vida de Donato.

Karim Aïnouz define a entrada de Ayrton como a de um ser selvagem. “É um bicho, assustando-nos com a sua raiva e fazendo o filme dar uma guinada para outro lugar. Presente também em ‘Madame Satã’, essa ira me interessa muito como um elemento importante da vida”, destaca. Aïnouz compara o irmão ao jogador francês Zidane que, na final da Copa de 2006, deu, intempestivamente, uma cabeçada no zagueiro italiano Materazzi. “Era um jogador meio lacônico que, após aquela reação brutal, mostra uma cara vazia. Ayrton tem pouco disso”.

A presença de Ayrton é tão forte que o filme dá a impressão de começar outra história, mas que não é levada até o final. “Gosto de brincar com essas expectativas. Não acredito muito no cinema com começo e fim. Penso naquele quadro do (Diego) Velazquez, ‘As Meninas’ (1656), em que você não sabe se uma das pessoas está subindo ou descendo a escada”.

O diretor diz preferir criar “apontamentos para uma solução” do que estabelecer um “the end” clássico. “O que faço é um recorte no tempo, com a história dos personagens prosseguindo depois do filme. Encerramos com eles entrando numa bruma, em alta velocidade, sobre motos, com a gente sem saber para onde estão indo”.

Em “Praia do Futuro”, Aïnouz pôde assumir de forma mais evidente seu gosto pelo melodrama. “Tinha um baita medo de fazer algo com uma alta voltagem dramática, mas minha vontade (de experimentar) era grande. Nos trabalhos anteriores, o olhar para as coisas era mais rebaixado”, admite.

Esse gosto tem muito a ver com a formação do diretor, fã das novelas de Janete Clair (autora mineira de “Irmãos Coragem” e “Pai Herói”, falecida de 1983). “É um universo muito familiar para mim”.

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