Resistir na rua: um dos principais festivais de teatro do país, FIT-BH retorna às origens

Vanessa Perroni
vperroni@hojeemdia.com.br
Publicado em 03/05/2016 às 19:52.Atualizado em 16/11/2021 às 03:15.
 (Jason Speth/Divulgação)
(Jason Speth/Divulgação)

“A crise é um momento para refletir e se reinventar”, comenta o presidente da Fundação Municipal de Cultura (FMC), Leônidas Oliveira. A afirmação é referente às dificuldades enfrentadas para viabilizar a 13ª edição do Festival Internacional de Teatro Palco & Rua de Belo Horizonte (FIT-BH). 

Com redução de R$ 2 milhões, em relação à edição de 2014, foi necessário unir forças com consulados, produtores e classe artística. E deu certo! O FIT-BH 2016 anunciou, ontem, a programação que conta com mais de 70 atrações que ocuparão diversos espaços da cidade entre os dias 20 e 29 desse mês.

Resiliência é a palavra que norteia esta edição e a grade de espetáculos. “Falamos de uma capacidade de resistência e de sair do lugar comum. Precisamos provocar para gerar mudanças, e o teatro é esse espaço”, pontua o diretor de Artes Cênicas e da Música da FMC, Jefferson da Fonseca Coutinho. Nesse sentido, foi inevitável voltar o olhar para a cidade, ouvir as vozes sociais e resgatar as origens. “Os espetáculos de rua sempre estiveram presentes no FIT, mas esse ano vêm com mais força. Ficamos surpresos de como nossos artistas estão tomando as ruas”, comenta Leônidas, que reforça que este ano cerca de 50% dos espetáculos são de rua. “Mas não por simplesmente ocupar a rua ou algo no âmbito da pirotecnia, mas pelo diálogo com o cidadão. Esse é o nosso olhar”, reforça Coutinho.


Números
São 13 os espetáculos internacionais – quatro a menos que na edição anterior – com temáticas fortes e atuais, como questões de gênero e intolerância, que prometem mexer com o espectador. “São espetáculos voltados para um teatro político e de resistência, mesmo diversos em suas temáticas”, garante Coutinho. Eixo curatorial desenvolvido por Eduardo Moreira, Diego Bagagal, Walmir José e Dayse Belico, traz peças de Escócia, Ucrânia, Portugal, Grécia, Itália, França, Argentina e Chile.

Os nacionais e locais somam 12 títulos e o FIT-BH abre uma janela para espetáculos dos grupos das escolas de Artes Cênicas da cidade, como o Teatro Universitário da UFMG, Escola de Belas Artes, Galpão Cine Horto, Escola Livre de Artes (ELA), Cefart e Teatro Puc-Minas. Nessa seara serão 11 espetáculos. “Os centros de formação, assim como a cidade, amadurecem em qualificação e reflexão. É um momento para colocar esses novos artistas em contato com pessoas de fora e afiar o olhar”, justifica Dayse Belico, que também assina a coordenação executiva do festival. Quem assina a curadoria das atrações locais é o trio formado por Carloman Bonfim, Luiz Hippert e Sergio Abritta.

Para todos
Além dos espetáculos, o FIT-BH também traz atividades circenses, mini teatro lambe-lambe, “Picnic Dionisíaco”, mostra de filmes e documentários, encontros performáticos, debates, oficinas, lançamentos de livros, Campeonato Interdrag de Gaymada e um bota-fora no Viaduto Santa Tereza.

A descentralização é outro ponto defendido pela equipe de produção. “Levar arte para todos os cantos é preciso. Vamos ter espetáculos na Pampulha, no Alípio de Melo e também na Sayonara Night Club”, exemplifica Coutinho.

Orçamento enxuto resulta na busca em sair do lugar comum
A programação completa do FIT-BH 2016 e a venda de ingressos estarão disponíveis para o público a partir da próxima segunda. Mas destacamos os pontos altos da grade de espetáculos. Confira!

Teatro de palco 
Marcado para acontecer entre os dias 21 e 23 no Museu Mineiro, o espetáculo “The Gospel According Jesus, Queen of Heaven” aborda o universo dos transgêneros. Representado pela performer e poeta escocesa trans Jo Clifford, a peça recorre ao evangelho para tentar combater preconceitos ainda vigentes.

A Compagnie di Théâtre K, da França, apresenta “Uma Maria, Um José”, no Palladium nos dias 21 e 22. O espetáculo é baseado em uma história real de dois sobreviventes do hospital psiquiátrico de Barbacena.

Entre as montagens locais está “Real”, recente criação do Espanca!, reunião de quatro histórias curtas, inspiradas em acontecimentos reais.

Da Argentina, vem o Colectivo de Investigación Apacheta e a peça “Mi Hijo Sólo Camina un Poco Más Lento”, texto do croata Ivor Martinic, que tem como temática a aceitação do diferente. Única apresentação no dia 24 no Galpão Cine Horto.

Versão atualizada do mito grego de “Kassandra”, princesa de Troia, a montagem de mesmo nome da La Vaca Cia de Artes Cênicas (Florianópolis) apresenta um monólogo da atriz Milena Moraes como artista-performer de uma boate. A peça acontece de 24 a 26 na Sayonara Night Club.

Resistir na rua: Um dos principais festivais de teatro do país, fit-bh retorna às origens

Cena do espetáculo "Kassandra"


Teatro de Rua
Os franceses da Compagnie Off abrem o FIT-BH, na Praça da Estação, no dia 20, com “Les Girafes, Opérette Animalière”, com direito a muita música, efeitos especiais, atores e, claro, as girafas citadas no título: gigantes, vermelhas e articuladas. Depois, ele segue para a Pampulha, no dia 22.

Do Chile vem Rodolfo Meneses e seu Palhaço Tuga no espetáculo “Con Su Permiso”, onde a luz vermelha do semáforo e a polícia não são autoridades. Em três lugares: Praça da Liberdade; em frente ao Mercado Central e Praça Duque de Caxias, de 21 a 26.

Dentre as atrações locais está o grupo Primeira Campainha com a peça “À Tardinha no Ocidente”, que reconta a história política do país de uma maneira lúdica, a partir de brincadeiras de rua. Ela ocorre nos dias 28 e 29 na Praça Duque de Caxias e Praça da Liberdade, respectivamente.

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 Espetáculo “Les Girafes, Opérette Animalière”, da França

Projetos Especiais
Dentre os espetáculos de grupos de formação está “Máquina”, da Miúda Cia, que é resultado de uma conclusão de curso do Cefart, envolvendo um constante diálogo do corpo com a morte, especialmente na terceira idade. No dia 25 na sala Ceschiatti do Palácio das Artes. 

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Cena do espetáculo "Máquina"

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