
“O sucesso da campanha é certamente algo a ser comemorado – e ficamos felizes por conseguir tencionar o imaginário coletivo da cidade”, brinda Fernanda Regaldo, um dos nomes por trás de uma iniciativa das mais bacanas surgidas na cena belo-horizontina nos últimos tempos, o coletivo Piseagrama.Uma ideia que começou a ser colocada em prática em 2010, e que ganhou fôlego com a aprovação no Edital Cultura e Pensamento do Ministério da Cultura. A “gestação”, porém, vinha de tempos mais remotos, digamos assim. “A vontade dos quatro editores de fazer uma revista sobre espaço público vem de muito antes”, confirma a moça, abarcando, em sua fala, os colegas Renata Marquez, Roberto Andrés e Wellington Cançado.
Na verdade, a pretensão era colocar no mercado uma revista de conteúdo diferenciado, e que abordasse, em suas páginas, o tema do espaço público “a partir de perspectivas bem diversas, como arte, antropologia, arquitetura, sociologia, botânica, política etc”.
Com o apoio do citado edital, a revista vingou, sim. De periodicidade bimestral e tiragem de dez mil exemplares, é distribuída gratuitamente em mais de 30 cidades de todo o Brasil.
Sacolinhas e camisetas
Mas o Piseagrama acabou tendo outros desdobramentos. E um deles, inclusive, já vem há algum tempo “colorindo” as ruas da cidade, em uma pá de looks adotados principalmente pelo público mais jovem – basta prestar atenção.
São sacolinhas (ou bolsas, como queiram) de pano, totalmente ecológicas, que portam mensagens/hashtags bacanas – ainda que, para alguns, utópicas – como #ônibus sem catraca.
De 2012 para cá, o número de pessoas com camisetas e sacolas com esses e outros dizeres – como “#carros fora do centro”, “#uma praça por bairro”, “#parques abertos 24H” e “#nadar e pescar no Arrudas” – circulando por aí só tem aumentado. “Já vendemos mais de dez mil itens. E é muito legal ver as pessoas vestindo a ideia”, diz ela.
O curioso é que, quando a campanha foi lançada, os próprios idealizadores não esperavam tanto sucesso. Prova inconteste é que foram produzidas apenas 500 exemplares das bolsas. “Achamos que iriam durar muito tempo”, admite Fernanda.
Ocorre que as peças esgotaram-se no mesmo dia! E mesmo passados dois anos, bolsas e camisetas continuam vendendo bastante, tanto através do website (loja.piseagrama.org) quanto nas lojas e outros pontos de revenda.
Embora tenha revelado a satisfação de “tencionar o imaginário da cidade”, a boa vendagem não é necessariamente motivo para o quarteto sair por aí, abrindo champanhe. “Infelizmente, urbanisticamente falando, as frases não deixarão de ser atuais por um bom tempo”, lamenta Fernanda, referindo-se ao fato de os slogans continuarem, por enquanto, na plataforma dos desejos.
Este ano, com o lançamento da nova edição da revista – o sexto número, previsto para o final deste mês –, a promessa é que o coletivo Piseagrama siga ainda mais ativo. “O que significa que vem muita novidade por aí”, avisa ela.
Ações transbordaram para as ruas
As manifestações de rua que eclodiram nas grandes capitais do país em junho do ano passado acabaram, previsivelmente, impulsionando ainda mais a venda de algumas sacolas/bolsas chanceladas pelo Piseagrama, pela afinidade com a pauta reivindicatória. “Depois de junho, com a consolidação, em Belo Horizonte, do movimento ‘Tarifa Zero’ e do debate sobre transporte público, a bolsa ‘#ônibus sem catraca’ acabou se tornando a grande campeã de vendas”, confirma Fernanda Regaldo.
Para usar um jargão da hora, as sacolas/bolsas se tornaram, pois, um “case”, o que atesta as ramificações do embrião do projeto. “De 2010 para cá, acabamos nos tornando mais do que um coletivo editorial, com ações que transbordaram, literalmente, para as ruas”, reconhece Fernanda.
“A campanha de interesse público, nesse sentido, foi uma ação de caráter prático com a qual conseguimos dar amplitude aos temas e debates propostos na revista e, de forma geral, a toda uma forma de pensar a cidade”, pondera ela.
Para 2014, a principal meta é dar continuidade ao projeto editorial da revista impressa. “Estamos concebendo a revista Piseagrama em um novo formato, com design diferente e uma proposta editorial expandida”, diz Fernanda, com anuência do arquiteto e mestre em teoria da arquitetura Roberto Andrés, outro dos sócios. “O novo formato será a partir do número 7”, adianta ele, lembrando que os exemplares anteriores devem ganhar reedição. Não bastasse, no site do Piseagrama é possível ler algumas matérias.
É interessante lembrar, ainda, que o Piseagrama abre uma janela interativa digna de nota: a publicação de “boas histórias, ensaios críticos, jornalismo literário, práticas espaciais e experimentações artísticas, sempre com foco na noção de público” de pessoas interessadas em colaborar. Para tanto, recomendam apenas que o interessado faça um “passeio” pelas edições anteriores.
Lembrando que cada edição parte de um tema especifico: Os temas dos cinco primeiros números foram: “Acesso”, “Progresso”, “Recreio”, “Vizinhança” e “Descarte/Cultivo”. Roberto Andrés disse que o “voluntariado” surpreendeu os editores. “Através do Edital Cultura e Pensamento, veio, por exemplo, na edição de número 5, uma colaboração de Macapá, sobre a relação da cidade com a água. Ou seja, mesmo sendo uma cidade na qual nunca estivemos (os quatro mentores do Piseagrama), a revista chegou lá. Agora, claro, também acontece de chegarem, até a gente, propostas bem bacanas, mas que a gente entende que não estão em consonância com a linha editorial da publicação”, esclarece.
Campanha
Ainda para este ano, Fernanda Regaldo frisa que o principal desafio do grupo é garantir a sustentabilidade da revista para além dos editais públicos. “Junto ao lançamento do sexto número da revista, daremos início também a uma grande campanha de financiamento coletivo (o dito crowdfunding) para a produção dos próximos números”, avisa.
Além do material da campanha de interesse público, a Piseagrama comercializa também uma série de livros cuja temática está relacionada a espaços públicos ou à cidade. “Temos em nossa lista, por exemplo, publicações como o ‘Atlas Ambulante’, uma cartografia de vendedores ambulantes de Belo Horizonte e o ‘Guia Morador’, um guia que busca mostrar a cidade que não sai nos guias oficiais”, diz ela.
A renda vai sempre para a produção da revista e demais ações do coletivo. “Os produtos da campanha costumam ser vendidos a preço de custo”, lembra ela.
"Nadar e pescar no Arrudas", um sonho
Embora a sacola mais bem sucedida do Piseagrama – a que preconiza o ônibus sem catraca via hashtag – esteja “linkada” a uma das reivindicações da população brasileira escancarada nas já citadas manifestações das ruas que varreram o país a partir do meio do ano passado, Fernanda Regaldo conta que, de uma forma geral, as pessoas também adoram a bolsa que porta os dizeres “#nadar e pescar no Arrudas”.
“Talvez por tratar do nosso rio tenha um elemento afetivo mais forte para os belo horizontinos”, aventa ela.
Fernanda lembra que ela própria já travou contato com muita gente na cidade que já teriam visto o Rio Arrudas limpo, ou pelo menos que já escutaram histórias daquela (idílica) época.
“E é incrível ver como as pessoas têm clareza de que ter um rio limpo na cidade não só seria totalmente viável se houvesse um engajamento do poder público (como provam as experiências de várias cidades ao redor do mundo), mas transformaria radicalmente as relações com o meio urbano”, advoga a moça.