
Ano passado, Maria Rita foi convidada para participar do Palco Sunset, do Rock in Rio, e decidiu dedicar toda a apresentação a Gonzaguinha. Poderia ser apenas uma experiência catártica de um grande festival, mas a vivência daquele momento teve mais desdobramentos. Interpretar os sambas do grande compositor morto em 1991 reacendeu o desejo da artista em reviver o gênero que ela já havia visitado em 2007, com o álbum “Samba Meu”. Um prazer que culminou no recém-lançado “Coração a Batucar” (Universal).
“Até o Rock in Rio, eu não sabia que disco teria de fazer e o ‘Redescobrir’ teve uma receptividade mais positiva do que eu esperava. Senti medo, meu próximo disco teria que ser muito bom, para não correr o risco de deixar a carreira ficar morna. Mas com o show do Rock in Rio, vi que não dava mais para segurar, eu tinha que cantar samba”, afirma Maria Rita em uma franca conversa ao telefone – há anos ela vinha preferindo realizar as entrevistas por e-mail. “Meu sentimento não é de volta ao samba, mas de alívio, de plenitude”.
Os arranjos – de altíssimo nível – ficaram nas mãos de Jota Moraes, que teve como referência as gravações dos anos 50. As gravações, ao vivo no estúdio, contaram com músicos que não fazem parte exclusivamente do universo do samba, mas são requisitados, como o guitarrista Davi Moraes (seu marido) e o baixista Alberto Continentino.
No repertório, composições que muitos autores lhe enviaram – inclusive, algumas feitas sob medida para Maria Rita. Estão aqui Rodrigo Maranhão, a turma do Quinteto Branco e Preto, Noca da Portela, Xande de Pilares, Joyce Moreno e muitos outros. Em “É Corpo, É Alma, É Religião”, presente enviado por Arlindo Cruz, ela canta a sua própria história: “Eu não nasci no samba/ Mas o samba nasceu em mim”. l
Escolher o nome de um álbum pode parecer tarefa fácil para um leigo, mas Maria Rita garante que não. Depois de gravar o novo trabalho em total segredo em novembro do ano passado, a artista vinha sendo pressionada por todos os lados para batizá-lo. “Era um drama. Eu olhava todas as letras das músicas do disco, achava e ‘desachava’ coisas, pensando ‘isso é muito longo’ ou ‘isso é muito óbvio’. Um dia, ensaiando para o show, cantei ‘Coração a Batucar’ e pensei: ‘bicho, essa é a música que explica o meu sentimento atual”, afirma.
Mas essa não foi uma escolha simples. “Coração a Batucar” é uma faixa do álbum “Elo”, de 2011, lançado pela Warner. Mas o novo álbum está sendo lançado pela Universal. “Liguei para a minha empresária e disse que eu tinha uma ideia, mas era preciso verificar se havia algum empecilho jurídico, porque o fonograma da música é da Warner. Fiquei também com medo de a Universal achar ruim ou o público ficar confuso. Mas deu tudo certo”, diz Maria Rita, garantindo que a troca de gravadoras não aconteceu por algum conflito.
Mesmo que foque no mesmo gênero de “Samba Meu”, ela garante que há diferenças entre os dois trabalhos. Em “Coração a Batucar”, ela se sente mais livre na condução do trabalho. “Em 2007, eu estava imersa naquela cultura. Ia à Lapa, a casa de sambistas, em festas. Queria mostrar que sou uma apaixonada pelo samba, que é algo que gosto de ouvir, dançar e cantar, que não era oportunismo. Agora, no novo disco, não tenho mais nada a provar”.
Mãe
Com “Coração a Batucar” prestes a sair em turnê, Maria Rita encerra de vez o ciclo do projeto “Redescobrir”, em que visitou o repertório de sua mãe, Elis Regina. “Toda noite em que estava no palco eu falava que não estava ali como cantora, mas como filha. A plateia se emocionava comigo e me segurava no colo. De vez em quando eu ficava chorosa, emocionada e até esquecia as letras, mas todos entendiam a minha emoção”, afirma.
Maria Rita conta que seu filho, Antônio, ouve músicas de Elis em casa, mas ela, não. “Ouvi-la me dói muito. Especialmente porque agora tenho 36 anos, a idade que ela tinha quando morreu. Passei a vida comparando minha vida com a dela, pensando ‘minha mãe aos 25 anos já tinha filho’ ou ‘com a minha idade ela foi para a Europa’. Agora não dá mais para pensar nisso”. atrocínio Pontes, 1.951. Mais informações podem ser obtidas nos telefones (31) 3277-8120 ou 8100.