
RECIFE – Rodrigo Santoro se lembra bem quando contracenava com uma fita crepe no chão. O filme era o épico violento “300” (2007) e, em seu primeiro grande papel em Holly-wood, na pele do vilão Xerxes, se viu cercado por paredes verdes. “Contracenava com a fita crepe no chão ou, sei lá, com a sandália de alguém. Tudo o que vocês viram no cinema foi feito na pós-produção”, lembra o ator, homenageado no Cine PE – Festival do Audiovisual.
Mais de dez anos depois, Santoro está longe de se sentir um ator hollywoodiano. Tanto é que não deixou de morar no Brasil. Sempre em busca de projetos interessantes, não deixa de ligar para diretores da nova geração pedindo um papel. “Talvez as pessoas me coloquem num lugar meio inacessível e isso não corresponde à verdade”, lamenta o ator, em cartaz na tevê com a segunda temporada da série “Westwold”, da HBO.
O que não se pode negar é o bom timing de Santoro, que entrou no mercado americano num momento em que Holly-wood se abriu para atores estrangeiros. “O americano abriu os olhos para o mundo, até por interesses claros de mercado. De toda forma, as oportunidades estão mais abertas”, salienta o ator, ainda que, muitas vezes, tenha que se satisfazer com papéis coadjuvantes. “No caso dos blockbusters, o americano sempre será o bonzinho. Os coadjuvantes e os vilões virão do resto do mundo”.
Apesar de trabalhar muito tempo fora do país, você acompanha os filmes que estão sendo produzidos no Brasil?
Sim, estou sempre pesquisando, buscando. Nem sempre tenho a oportunidade de ir a festivais, que é realmente quando temos a chance de ver filmes – muitos deles não distribuídos. A última referência que tenho é “Boi Neon”, que gostei muito e até mandei recado para o (diretor) Gabriel Mascaro para ver se ele me convidava para alguma coisa. Estou antenado no cinema de forma geral, sem regionalismos. Estou sempre lendo os roteiros que chegam. Talvez as pessoas me coloquem num lugar meio inacessível e isso não corresponde a verdade. Eu leio, vejo muita coisa, entre eles curtas. Aqui mesmo perguntei se, na sessão (em que Rodrigo foi homenageado), teria curta. Não só acho importante como tenho gosto, prazer em ver cinema. Seja ele feito no Nordeste, no Sul, no Centro-Oeste, em todos os lugares do Brasil.
Como se dá o seu processo de escolha dos filmes que participa?
Eu acho que é uma combinação de coisas. Não tem muita fórmula. Eu me surpreendo, às vezes, nestas escolhas. Acabei de passar por um processo em que comecei pensando que queria fazer e depois resolvi que não iria mais. As razões são múltiplas. Não consigo me enquadrar, não existe uma equação. É projeto a projeto, oportunidade por oportunidade. Acho que, na proporção, 70% são instinto. E, claro, existe o racional, a própria experiência. Enfim, é uma mistura entre o racional e o processo instintivo em que ele aquilo lhe comoveu de alguma forma, tem que dialogar com você. É muito como uma amizade. Uma pessoa vem conversar com você e, quando percebe, já está há uma hora conversando. Você não conhece a pessoa, mas alguma coisa aconteceu que você não sabe explicar exatamente, mas existe o que chamamos de química. É uma analogia que também pode ser feita ao roteiro quando eu leio. Alguma coisa acontece ali em que você gosta da história, do personagem.
"Construo personagens como um pedreiro constrói uma casa. Acho que o artista é um estudante do comportamento humano. E sempre observando muito e sempre procurando momentos para olhar para a vida. São coisas simples, como ir para a praça e ficar olhando. É quando você entende o comportamento humano”
Os nomes com quem irá trabalhar também pesam na balança no momento de escolher?
Tudo é importante: a história, o personagem e, essencialmente, as pessoas com quem vou trabalhar. Você pode ter um ótimo roteiro, um diretor maravilhoso, um elenco incrível e, às vezes, o filme não funciona. A gente não consegue explicar o porquê. Mas a experiência que teve com o trabalho, você levará para sempre. Enquanto trabalha, a gente está vivendo também. Sem a menor dúvida, serão experiências memoráveis e eu vou aprender com isso. Essas coisas são sólidas, elas me transformam e são importantes para mim. O resultado, se vai dar bilheteria, se a crítica vai gostar, se o público vai responder, a gente não tem o menor controle. Um exemplo é “Westworld”, que é o meu trabalho mais atual. A questão de com quem iria trabalhar foi um fator decisivo. Eu já tinha me interessado pelo roteiro, mas tinha dúvidas sobre um compromisso mais longo, já que continuo residindo no Brasil. Quando comecei a entender quem eram os atores (entre eles, Anthony Hopkins e Ed Harris), o meu interesse aumentou imediatamente. Depois de três, quatro anos fazendo (a série), você vê como é maravilhoso, uma experiência que não consigo nem descrever. E não é porque são pessoas famosas e sim porque são grandes artistas. Foi assim também em outros filmes que fiz. No Brasil, o primeiro (“Bicho de Sete Cabeças”) teve Othon Bastos. Trabalhei com Paulo Autran (“Hilda Furacão”), Fernanda Montenegro (“Hoje é Dia de Maria”), para falar dos mais veteranos. Ter a oportunidade de estar com eles todos os dias, ver o processo, hoje em dia é o mais importante para mim.
Ao lado da esposa Mel Fronckowiak
Você estava no auge no Brasil quando começou a fazer filmes e séries no exterior, em grandes produções como “As Panteras Detonando”, “300” e “Lost”. Chegou a ter dúvida se iria conquistar Hollywood?
Esta visão de que fui fazer uma carreira em Hollywood não existe- entendo que ela possa aparecer, mas não é isso. Na época, eu fui divulgar filmes brasileiros, o “Abril Despedaçado” e o “Carandiru”. A partir destes dois longas, eu passei a tomar contato com o mercado externo – participar de festivais e falar com diretores e imprensa. Gradativamente, eu fui me aventurando, me encantado, me auto-estimulando, e, ao mesmo tempo, sem levar muito a sério– como é até hoje. Não saí com este objetivo, não saí com uma mochila nas costas para conquistar Hollywood. Estava vivendo aqui um momento sensacional. Tinha trabalhado com Walter Salles e Hector Babenco, estava tudo certo. Nada me faltava para eu ter que buscar fora. Foi mesmo uma consequência (trabalhar no exterior) e, depois, saber o que se faz com aquilo. Como é característico da minha personalidade, eu fui aos poucos, em produções mais independentes. Tive propostas que eu não achei interessantes. Eu só fiz coisas, como acontece hoje, que têm diálogo comigo. Eu nunca me desrespeitei. É tudo uma estrada só – eu não me concentro unicamente nos Estados Unido. Trabalho aqui e também em Cuba, como vocês verão daqui a pouco, com o filme “Um Tradutor”, sobre vítimas infantis de Chernobyl que foram mandadas para Cuba para fazer tratamento de câncer.
“Na primeira vez que fiz um trabalho fora do Brasil era um outro mercado. As oportunidades eram pequenas e estereotipadas quando voltadas para um latino. Eu pegava um roteiro e já ia logo procurando o Raul, o Juan, o Ramirez. Era sempre isso. De uns cinco ou seis anos para cá isso vem se transformando”
É o segundo filme de temática cubana que você faz – o outro foi “Che”, em 2008. Como surgiu o interesse por este trabalho?
É a história real de um professor de Literatura Russa, que dava aula na Universidade de Havana, e é posto dentro do hospital para ajudar estas pessoas a se comunicarem com os médicos. Minha atuação tem falas em russo e espanhol. O filme foi feito pelos dois filhos deste professor. Eles se aproximaram de mim e a primeira pergunta que fiz foi: um personagem cubano, que passará uma metade do filme falando “cubanês” – nem é espanhol, pois o sotaque do cubano é bem específico – e outra em russo, por que vocês estão procurando um brasileiro? Começou com isso e, depois de muita conversa, um dos diretores me disse: independentemente da nacionalidade, mesmo sendo ele de língua espanhola, teria que aprender russo; é um filme sobre o nosso pai e gostaríamos que você fizesse. E eu respondi que este era um argumento que não iria contestar. O que quero dizer é que, apesar de estar em Holly-wood, ver aquela placa e cruzar na esquina com atores conhecidos (um dia uma atriz tropeçou no tapete vermelho e se apoiou em mim e, quando vi, era a Sharon Stone!), sempre olho isso como uma grande aventura, em que sigo tentando contar histórias e falar da vida, refletir nossa condição de humanos.
Houve uma renovação da cena autoral brasileira. Você avalia que perdeu oportunidades com essa geração, já que seus filmes no país foram produzidos em 2011 e 2012?
Eu não diria que perdi... O “Heleno” (sobre o jogador de futebol Heleno de Freitas) foi um projeto muito desejado em que eu também me aventurei como produtor, então me envolvi muito. Depois disso estive envolvido em alguns projetos no Brasil que acabaram não acontecendo. Eu não senti que estava perdendo esse momento, até porque eu estou sempre muito aberto, apesar de existir essa ideia de que eu more fora. Estou sempre presente, dialogando com os meus amigos. É que ainda não rolou. Estou sempre assistindo filmes para isso, para ver esses diretores interessantes e descobrir como eu chego neles. Além de ver, eu vou atrás. Continuo aguardando pacientemente e com apetite por essas produções.
“Aconteceram dois casos de filmes americanos que eu não dublei meus personagens para o português. Num deles, um primo escreveu para mim, dizendo que a voz que colocaram em mim estava horrível. Normalmente, as distribuidoras me procuram (para dublar)”
Você participou de “Heleno” como produtor também. Pensa também em dirigir seus próprios projetos?
Como diretor, ainda não. Não penso nisso agora. Não vou dizer que nunca farei, até porque surgem algumas ideias de vez em quando. De toda forma, não vejo isso num futuro próximo. Me sinto ainda muito curioso como ator. Em “Heleno”, eu me aventurei como produtor e foi uma dor de cabeça... Foi muito bom, porque me ensinou muita coisa, mas é muito difícil. Quem produz, sabe. A dor de cabeça veio porque estava atuando e produzindo e, quando chegou a hora de filmar, eu disse que não estava podendo participar das decisões porque precisava focar no personagem, algo bastante complexo para se resolver. Naquele momento, foi muita areia. Mas produzir foi uma experiência muito boa porque aprendi a olhar para os outros de uma outra forma. Como ator, você chega, faz o seu trabalho e vai embora. Como produtor, eu era o primeiro a chegar, participava de uma série de coisas, via o pessoal da luz montando e descarregando o caminhão... Então aconselho a qualquer ator viver essa experiência, mesmo que seja uma vez só, para entender e respeitar o trabalho de todo mundo que está ali.
(*) O repórter viajou a convite da organização do Cine PE – Festival do Audiovisual
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