"Ser celebridade é só um detalhe", diz veterana Eva Wilma

Elemara Duarte - Hoje em Dia
Publicado em 11/04/2014 às 07:55.Atualizado em 18/11/2021 às 02:04.
 (João Caldas)
(João Caldas)

Aos 80 anos de vida, sendo pouco mais de 60 deles em prol das artes cênicas, a veterana atriz Eva Wilma está mais uma vez na estrada (na verdade, desde o ano passado), para comemorar ambos os marcos “redondos” com a montagem da peça teatral “Azul Resplendor”. Escrita por Eduardo Adrianzén, a montagem chega a Belo Horizonte, por meio do projeto “Teatro em Movimento”, de hoje a domingo, no Teatro Bradesco.

A atriz paulista subirá ao palco ladeada por várias gerações de colegas, como Renato Borgui – idealizador da montagem no Brasil, que além de atuar, dirige a montagem em parceria com Elcio Nogueira Santos –, Guilherme Weber, Luciana Borghi, Luciana Brites e Felipe Guerra. Mesmo com a experiência, a atriz se mostra puro entusiasmo – seu “deus” interior mais cultivado – até mesmo com o espaço que vai recebê-la. ‘Dizem que é um excelente teatro. Vocês sempre têm grandes espaços”, elogia, em entrevista ao Hoje em Dia, que o leitor confere a seguir.

Você está com 80 anos e cai na estrada com todo vigor, como num contraponto à sua personagem. Como vê a experiência?

Vivo uma atriz, Blanca Estela, que foi uma ‘estrelona’. Há mil motivos pelos quais se retirou. O que o autor conseguiu, com muita maestria, foi reunir três gerações, todas dedicados às artes cênicas. A peça fala de um velho ator que foi companheiro de cena dessa velha atriz, mas fazia pequenos personagens. A mãe dele faleceu e deixou uma pequena fortuna. Então, escreve um texto para a atriz, que é o grande amor da vida dele, convencendo-a a voltar à cena. É uma peça dentro da peça.

Como chegou ao texto?

O diretor de produção, André Bello, um bom mineiro, trabalha comigo há 12 anos e trouxe essa proposta. Me pregou esta armadilha (Risos). Disse que íamos comemorar meus 60 anos de carreira. O autor também é professor de teledramaturgia e dava pulos de alegria quando soube que eu ia encenar o texto. Veio para a estreia no Brasil. Eu me apaixonei assim que acabei de ler e desisti de todos os outros projetos que estava desenvolvendo. O texto é um humor crítico, que é o que mais admiro. Tem uma maneira poética ao abrir e fechar o espetáculo, falando da finitude da vida.
 
Ainda resta para você algum receio da maturidade?

Imagina! Estou mergulhada na maturidade há 20 anos. (Risos). Tenho é prazer. Nesta fase da vida, a gente vive um dia de cada vez e intensamente. Só isso.

É a grande sabedoria...

Pois é. A outra grande sabedoria é aprender a conviver com as limitações e perdas. Na semana passada fizemos a centésima apresentação, em Bauru (SP), dedicamos o espetáculo ao José Wilker (ator e diretor que morreu na última semana, aos 67 anos).

O ponto inicial destes 60 anos é o Teatro de Arena?

Sim... Comecei em 1953, ali, com a peça “Uma Mulher e Três Palhaços”, mas também em cinema e em televisão. No primeiro ano, não tínhamos sede. Fazíamos os espetáculos em museus, festas particulares, fábricas, no meio do público, sempre sobre um tablado redondo. Abandonei a carreira de bailarina clássica pela de atriz. Por isso que, nessa peça, fazia uma bailarina. Fez tanto sucesso que viemos parar no Rio de Janeiro, trazidos pela FAB (Força Aérea Brasileira), para temporada no Palácio do Catete, onde nos apresentamos para o então presidente Café Filho. Foi capa de revistas, notícia em todos os jornais importantes da época.

E o filme e a novela?

O filme foi o “O Homem dos Papagaios”, com o ator e diretor Procópio Ferreira (1898 – 1979). E, logo de cara, fiz “Alô Doçura”, que fez bastante sucesso também.

Você tem uma visão muito lúcida da dramaturgia brasileira em mais de meio século. Acha que algo se perdeu nessa busca dos jovens aspirantes a artistas em serem celebridade?

Ser celebridade, isso é só um detalhe. Há 60 anos, o mercado estava se abrindo. Era menos complicado entrar na carreira, nas artes cênicas. Hoje, é muito competitivo. Existem muitos talentos jovens, sensacionais e que lutam por um lugarzinho ao sol e, hoje, é difícil.

Como foi sua experiência com o Cineasta Alfred Hitchcock?

Fiz um teste para um filme dele, em 1968. Eu o conheci. Meu primeiro marido (John Herbert, 1955-1976), pai dos meus filhos, recebeu um convite da embaixada norte-americana para passar 45 dias nos Estados Unidos em visitas a teatros e televisões. Fomos nós. E almoçando nos estúdios da Universal, um agente perguntou se eu poderia fazer umas fotos. O Hitchcock procurava uma atriz latino-americana para um papel de uma personagem cubana para o filme “Topázio” (1969). Voltamos para o Brasil e pediram para que eu voltasse para fazer o teste. Fui sozinha, pagaram a primeira classe para mim. Foram nove dias muito ricos de experiências.

Em uma frase, como era Hitchcock?

Ele era muito inteligente, vaidoso e sádico. Um homem interessantíssimo. Fiquei admirada com a quantidade de cabelinhos brancos dos técnicos. É uma coisa que lá se respeita. O estúdio tinha um trailer com o meu nome. Mas muito delicado conosco. O agente retornou, meses depois, e disse que eu não tinha conseguido. Meu único consolo é que “Topázio” não foi um dos melhores filmes dele. Mesmo assim, eu gostaria de ter feito.

Mas, agora, pelo menos, você tem uma boa história para contar para nós...

Várias! (Risos)

O que sua profissão lhe ensinou de mais nobre?

O que move o trabalho do ator, acima de tudo, é o amor ao público e o entusiasmo. Entusiasmo é uma palavra que vem do grego (“en” e “theos”), e significa “ter um deus dentro de si”.

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