Sexo, ciúme e traição: última peça escrita por Nelson Rodrigues estreia neste sábado em BH
Escrita em 1978, 'A Serpente' ganha nova montagem no Teatro da Cidade e revisita temas como desejo feminino, violência psicológica e relações de poder; ingressos tem valor único de R$ 40
Amor, sexo, ciúme e traição voltam a se encontrar no palco de Belo Horizonte a partir deste sábado (17), com a estreia de uma nova montagem de A Serpente, última peça escrita por Nelson Rodrigues. Sob direção de Guilherme Colina, o espetáculo será apresentado no Teatro da Cidade nos dias 17, 18, 22 e 23 de outubro, revisitando uma trama em que o desejo ultrapassa os limites da vida conjugal e ameaça destruir a relação entre duas irmãs. Ainda há ingressos disponíveis para todas as apresentações, com valor único de R$ 40, pela Sympla.
Escrita em 1978, a obra retorna aos palcos quase cinco décadas depois com questões que permanecem atuais. A montagem propõe um olhar sobre violência contra a mulher, dependência emocional, masculinidade e autonomia feminina, sem deixar de lado os conflitos familiares que marcam a dramaturgia de Nelson Rodrigues.
No centro da história está Lígia, interpretada por Carol Carva. Casada há quase um ano com Décio, vivido por Emilliano, ela enfrenta um casamento que nunca foi consumado. Ainda virgem, a personagem convive com a rejeição do marido e com sentimentos de solidão e inadequação.
Enquanto isso, sua irmã Guida, interpretada por Simone Ribeiro, vive uma realidade oposta. Casada com Paulo, personagem de Bruno Venna, ela mantém uma relação marcada pelo desejo sexual. Ao perceber o sofrimento de Lígia, Guida toma uma decisão que muda o destino dos quatro personagens: oferece à irmã uma noite com o próprio marido.
O acordo, pensado como uma tentativa de ajudar Lígia, desencadeia uma sucessão de conflitos. O que deveria durar apenas uma noite transforma a relação entre as irmãs, colocando em disputa sentimentos como amor, cumplicidade, ciúme e medo da perda.
De 1978 a 2026: o que mudou nas relações?
Na nova montagem, Guilherme Colina busca aproximar o universo de Nelson Rodrigues dos debates contemporâneos sobre as relações afetivas. A trajetória de Lígia permite discutir formas de violência que nem sempre deixam marcas físicas, como humilhação, rejeição, controle e dependência emocional. É justamente dentro do casamento, espaço associado à intimidade e à proteção, que a personagem enfrenta parte de seu sofrimento e vivencia sua descoberta sexual.
Já Décio representa outra dimensão do conflito. Sua dificuldade de consumar o casamento está ligada às expectativas de virilidade e desempenho sexual impostas aos homens. A frustração do personagem se transforma em vergonha, raiva e violência.
A relação entre Guida e Paulo também se modifica ao longo da história. Inicialmente segura de sua decisão, Guida percebe que não consegue controlar as consequências do encontro entre o marido e a irmã. É nesse ponto que a peça expõe uma das contradições centrais da trama: a tentativa de estabelecer regras para sentimentos que escapam ao controle dos personagens.
Montagem também questiona representação da mulher negra
Além de revisitar os conflitos afetivos da obra, a direção propõe uma intervenção na personagem Crioula, lavadeira da casa, interpretada por Efigênia Maria. Guilherme Colina questiona o nome e a maneira como a personagem foi apresentada no texto original. Para a nova montagem, criou um solo especialmente para a atriz, trazendo à cena uma reflexão sobre racismo e a representação da mulher negra.
A proposta é colocar a dramaturgia escrita em 1978 em diálogo com o público de 2026, preservando os conflitos da obra e abrindo espaço para questionamentos sobre aspectos sociais presentes no texto.
Completam o elenco Carol Carva, Simone Ribeiro, Emilliano e Bruno Venna.
Serviço - 'A Serpente', de Nelson Rodrigues
Local: Teatro da Cidade, Rua da Bahia, 1341 Centro
Datas e horários: 17 de outubro (sábado), às 20h; 18 de outubro (domingo), às 19h; 22 de outubro (quinta-feira), às 20h; e 23 de outubro (sexta-feira), às 20h.
Ingressos: Valor único de R$ 40, disponíveis pela Sympla.
Leia também:
