Sobre rodas, um espetáculo entre o perigo e o aplauso

Elemara Duarte - Hoje em Dia
Publicado em 29/03/2014 às 08:20.Atualizado em 18/11/2021 às 01:49.
 (Luiz Costa/Hoje em Dia)
(Luiz Costa/Hoje em Dia)
Nilton Silva, 68 anos, sobreviveu ao globo da morte durante quase 50 anos. Já Douglas Rodrigues, 31, faz fama no exterior com esta arte e fatura até 100 euros por dia (cerca de R$ 300) em temporadas de inverno em circos no exterior. Para o espetáculo circense, parece não haver tempo ruim quando o assunto é perenidade mesmo entre gerações tão distintas.
 
Por quase cinco décadas, o experiente Nilton Silva sentiu o perigo bafejando no seu pescoço, mas também, nas suas pernas, braços, no corpo inteiro. “Cheguei a ver um amigo cair e ficar paralítico”, lembra. Ele, porém, já caiu algumas vezes, mas nada que deixasse sequelas tão profundas.
 
Aprendendo na raça
 
Nilton Silva é um dos mais antigos praticantes desta perigosa arte no Brasil. “Quando comecei, no circo do meu pai, não tinha essas roupas de hoje. Era calça e camisa social, bota e, de segurança, só um capacete”, lembra o artista, que hoje trabalha no Circo Coliseu di Roma, montado no município de Arcos, região Centro-Oeste de Minas.
 
O artista nasceu na Bahia, em uma das itinerâncias do Circo Spadone, que durante 60 anos pertenceu ao pai dele. A mãe era acrobata. Quando fez 20 anos, diz ele, o pai contratou o globista Rolando Queirolo, também de tradicional família do picadeiro, para ensiná-lo a dominar o interior do globo metálico. 
 
Daí, a esposa, Ângela de Souza Silva, também foi globista. O filho dos dois também segue a arriscada profissão, mas em um circo em Pernambuco.
 
Aos poucos, o ofício vai ficando de lado. “Lá fora, hoje, tem muito valor. Mas eu, nessa idade, não dá mais. Não tenho mais o encanto das motos. São quase 50 anos rodando... Já rodei em plena avenida Afonso Pena, numa festa do Dia do Trabalhador, quando instalaram um globo para apresentações”, destaca.
 
Na última semana, Silva vendeu o globo. “Insistiram comigo. Vendi”, diz, pesaroso. O circo, porém, ele não pretende deixar tão cedo. “Não dá para acostumar com a vida em uma casa. Meu medo é este. Eu me criei assim no circo. Está no sangue”. 
 
Minas Gerais, ele escolheu para “parar”, mas nem tanto. Hoje, ele mora em um trailer, ajuda na divulgação do circo e em outras atividades administrativas. Globo da morte só de vez em quando. “É por isso que sempre falam comigo: Nilton, o sobrevivente do globo da morte”, orgulha-se o baiano.
 
Craque do globo
 
Semelhante paixão tem o globista Douglas Rodrigues, do Circo di Monza e na arte desde os 16 anos. “Começo rezando para mim e pela minha moto, no momento em que coloco a tornozeleira”, diz. Andressa Moura, a esposa, diz que fica apreensiva, mas que acaba se acostumando com a profissão do marido.
 
Quando Douglas é chamado para os trabalhos fora do Brasil aí é mais agonia. Longe das filhas gêmeas e dela, mas para o bem de todos. Dois meses de temporada, ganhando em euro é um alívio para o orçamento anual da família. “Vou uma vez por ano, nas férias de dezembro daqui no Brasil, quando os circos dão uma parada. Lá fora tem os melhores shows”, explica Douglas.
 
Europa, Ásia, África são alguns dos destinos já atingidos por Douglas. “Na Europa, o público conhece os artistas de circo como aqui o público conhece os de TV”, explica. Ele, claro, não deixa de provar dessa fama, mesmo que pelo reconhecimento financeiro. “No exterior, mão de obra para o globo da morte é como se fosse jogador de futebol”, compara.
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