
Tudo é questão de tempo: a justiça, o amor, a união, os “erros corrigidos”, a “paz de espírito” – como canta Sharon Jones em “Matter of Time”. Até mesmo a morte, que levou a cantora norte-americana em novembro de 2016, aos 60 anos, depois de uma aguerrida batalha contra o câncer.
De fato, ninguém melhor que Jones para falar sobre o tempo. Descoberta tardiamente em 1996, pela Desco Records, só veio a ganhar fama como corista de Amy Winehouse, na Daptone. Com o The Dap-Kings, banda da cultuada gravadora nova-iorquina, finalmente decolou, correndo contra o relógio para realizar seu sonho.
Conseguiu: rodou o mundo protagonizando shows intensos, emocionando plateias com sua voz visceral e deixando uma discografia consistente de sete álbuns. Foi ponta de lança de uma possível nova onda da sagrada soul music, aficionada pelo som vintage, pelo retorno do vinil e pela potência avassaladora que esta música proporciona.
O oitavo álbum, ela gravava durante a batalha contra a doença. Lançado na semana passada, “Soul of a Woman” vai além de um mero disco póstumo: é um desenho musical e profundo da alma de Sharon Jones. O talento, a força, a grandeza e a dor; está tudo lá, registrado nas 11 faixas inéditas gravadas junto à banda onde sua voz fez morada nos últimos anos.
Com a produção impecável da Daptone, o álbum transita entre o dançante e o sofrido, abrindo com o poderoso funk de “Matter of Time”, seguido da também eletrizante “Sail On!”. Se os quadris remexem nas duas primeiras, o coração arde em “Just Give Me Your Time”, que encontra pares em blues e baladas avassaladoras como “Pass Me By” e “These Tears (No Longer For You)”, uma das mais fortes do disco.
Sob o groove ritmado de canções como “Searching for a New Day” e “Come and Be a Winner” está a mensagem de uma vencedora, que sofre e se machuca, mas resiste e segue em frente.
Para fechar “Soul of a Woman”, Jones conecta-se ao espiritual em “Call of God”, numa partida que faz engasgar até o mais frio dos corações. Um passeio sonoro cortante que abrilhanta o legado de uma das cantoras negras mais singulares destes tempos.