
O primeiro tambor do qual se tem notícia seria datado de 6.000 a.C, ainda na Era Neolítica, considerada o último período pré-histórico, e foi encontrado numa escavação na região da Morávia, atualmente a parte oriental da República Checa. Dá para imaginar? Sim, e até hoje, este instrumento marca presença na cultura de várias nações. Como a brasileira. E Minas, claro, não ficaria de fora.
Exemplo? Nesta sexta-feira (17), às 21h, a Associação Cultural Tambor Mineiro, tradicional espaço de formação musical e de difusão dos ritmos da cultura afro-mineira, será tomado pelos tambores do Grupo Tambolelê (que está completando 20 anos de estrada) e da Oficina Tambor Mineiro. Certeza, pois, de uma noite para ficar na memória.
Sotaque francês
Claro, do primeiro tambor citado até hoje, o instrumento passou por alterações, até “assumir” a forma atual. No Brasil, por exemplo, se fortaleceu apenas milênios mais tarde, com a vinda dos africanos. E, desde aquela época, por aqui, este batuque quase sempre firmou ligação com as celebrações. Os mineiros, alegres que são, deram um jeito de não só adotar o instrumento, como desenvolver maneira peculiar de usá-lo – o que atrai gente de outros continentes.
“Vi de perto a batucada da Bateria Imperador, em 2012, em BH, e gostei muito do som do tambor”, conta o engenheiro francês Nicolas Pupier, 26 anos, que tratou de se matricular numa oficina.
Prova de que foi um aluno aplicado foi o entusiasmo mostrado ao discorrer, junto à reportagem sobre os vários tipos de tambores. “Tocar me faz muito bem, pois não é preciso pensar ou conversar, é só me concentrar na música, curtir e sentir o som. Mas ainda tenho muito a aprender”, emenda, modesto.
Tentando manter acesa a chama da cultura popular brasileira
Nascido em Saint-Symphorien-sur-Coise, Pupier veio para BH a trabalho, há um ano. Quando se for, motivos para sentir saudades não vão faltar. “Além da música e da dança, gosto muito do carinho e do jeito das pessoas, da leveza que têm para levar a vida”. Vale lembrar que, por muito tempo, tocar tambor esteve atrelado quase que restritamente ao universo masculino. “Este pareceria ser um fluxo espontâneo, pois, simplesmente, não se via mulheres tocando o instrumento”, diz a musicista e estudante de Fisioterapia Iamí Rane.
Momento libertador

Iamí Rane participa dos grupos Xicas da Silva e Baque de Mina. Foto: Ricardo Nomade/Divulgação
Filha de Santonne Lobato, um dos integrantes do Tambolelê, a moça, de 24 anos, se descobriu na música há 15, com a Associação Cultural Tambor Mineiro. “Foi ali, e com a criação do grupo Xicas da Silva, que comecei a me interessar de fato pela percussão”.
O grupo, exclusivamente feminino, se reúne aos sábados e, por meio dos tambores, tenta manter viva a cultura popular brasileira, por meio de ritmos como samba de roda, coco, congo, maracatu e moçambique.
“Tocar tambor é algo singular. Quando estou bem, saio mais feliz ainda. Mas se estou mal, é um momento libertador, de mandar embora aquela carga ruim”, diz Iamí, que integra, ainda, o grupo de maracatu Baque de Mina.
Tambolelê fortalece tradição que vai além da música

Grupo Tambolelê completou 20 anos de estrada neste ano. Foto: Rafael Motta/Divulgação
O Dia Nacional do Tambor é comemorado em 18 de junho, mas, até hoje, a cidade está repleta de eventos ligados ao instrumento. Um deles é a já citada apresentação do Tambolelê e da Oficina Tambor Mineiro, nesta sexta-feira (17), às 21h, na rua Ituiutaba, 339, Prado.
Nascido durante o Festival de Arte Negra (FAN), o Tambolelê completa, neste ano, 20 anos de história, na qual tornou-se referência na labuta para preservar a cultura do tambor afro-mineiro.
“O tambor está na natureza e na alma mineira e temos uma forma diferente de tocá-lo. Na Bahia, ele é tocado entre as pernas, e, em Pernambuco, na altura da cintura. Se você reparar bem, vai ver que somos os únicos no Brasil a tocar o tambor do lado esquerdo do peito, junto ao coração”, compara um dos fundadores do grupo, o músico e luthier Santonne Lobato, 47 anos.
Fabricador de som
A história de Santonne com o tambor teve início antes mesmo da criação do Tambolelê. “Comecei fabricando tambor. Já fiz, por exemplo, para o Paralamas do Sucesso, o (Maurício) Tizumba e vários outros. Para o Milton Nascimento, dei o maior do mundo. Hoje, inclusive, exporto tambor”, frisa.
Mais do que entendido do assunto, Santonne afirma tratar-se de um costume que vai além da arte. “Tocar tambor é extremamente sagrado e pode curar, tirar mau olhado e até impotência sexual (risos); é medicinal, sim, porque, quando você coloca do lado do coração, não tem como: o seu corpo reage na hora”, afirma.
O mestre Maurício Tizumba dá o ar da graça em dose tripla, de hoje ao fim do mês
Não há como falar de tambores sem lembrar uma das maiores referências da arte no Estado: Maurício Tizumba, 57 anos. Fundador do Tambor Mineiro, ele, estará nesta quinta-feira (16), às 19h, na Sala Juvenal Dias do Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1.537) – embora, aqui, o tambor não seja o foco.
Tizumba divide o palco com Luiza Brina (e uma banda formada só por mulheres), no projeto “Dois na Quinta”, do BDMG Cultural (entrada a R$ 5). “Para mim, a Luiza é um dos maiores talentos da atualidade”, elogia.
O músico também estará no Festival de Inverno da UFMG, sábado, às 20h30, no Teatro Francisco Nunes, com o show gratuito “O Som do Tambor Mineiro”. Já nos dias 21, 22 e 23, ele dá aula de graça no Parque Municipal, junto à Oficina Tambor Mineiro.
Homenagem
Instrumentista, cantor e compositor, Tizumba será, ainda, o homenageado da escola de samba Canto da Alvorada em 2016. Com o enredo “Tizumba É”, a escola irá lembrar alguns sambas da carreira do músico. Não por acaso, Tizumba conta que seus projetos extrapolaram os limites do país. Há quatro anos, vem mostrando aos alemães um pouco da tradição do tambor mineiro. “Volto para a Alemanha ainda este ano, em outubro, para dar aula de como os mineiros tocam tambor”, diz.
Conheça mais o Grupo Tambolelê:
Ouça um pouco do batuque de Tizumba com o Grupo Tambor Mineiro: