Tatá Werneck satiriza a própria carreira em 'TOC'

Chico Felitti - Folhapress
Publicado em 02/02/2017 às 10:03.Atualizado em 15/11/2021 às 22:40.

Tatá Werneck é Kika K em "TOC", comédia que chega a grande circuito nesta quinta (2). Tatá Werneck também parece ser Kika K na vida real: a personagem é uma atriz que se vê presa nas engrenagens da fama, mais preocupada com o papel que vai ocupar nas capas de revista de boa forma que com os papéis que vai desempenhar em cena.

Não deve ser coincidência qualquer semelhança com a jovem cômica, que ganhou projeção fazendo humor em cima do mundo da celebridade e acabou virando uma do primeiro time após migrar para a Globo, uns anos atrás.

Uma anedota: quando tinha um programa de comédia na TV paga, Tatá fez um esquete que caçoava da estética de comerciais de xampu, com suas dublagens cafonas e fora de sincronia. Anos depois, acabou, quem diria, balançando as madeixas em reclames de cosméticos reais.

Mas, ao contrário de Tatá, Kika sofre de transtorno obsessivo compulsivo e, por isso, não consegue pisar na cor preta e vive sofrendo sobressaltos por achar que esqueceu o fogão ligado.

O distúrbio dá um ritmo frenético ao filme, que tem linguagem de videoclipe, com intervenções gráficas sobre a tela em transição de cenas ou em episódios de delírio da protagonista.

Essa rapidez é ajudada por um roteiro fluido e com um útil espaço para improviso, arte primeira de Tatá. O resultado é um mosaico de cacos da cômica que enriquece o humor do longa.

O filme tem digressões que funcionam como esquetes e permitem à atriz soltar sua criatividade e requentar personagens antigos. O papel da moça abilolada na novela, por exemplo, é um revival de Fernandona, a menina que morava trancada no porão do "Comédia MTV".



​Faço aqui um apelo para que todo filme nacional seja obrigado, por lei, a contar com Vera Holtz, uma cleptomaníaca de cenas no papel da empresária tabagista e com um caráter mais curto que o filtro dos seus cigarros. Mas não só. O elenco todo está engraçado.

Bruno Gagliasso mostra desenvoltura como o namorado onanista. Luis Lobianco faz rir de nervoso como o fã obcecado pela atriz.

O longa autoirônico arrancou gargalhadas de uma sala cheia de jornalistas ranhetas - imagine o que deve conseguir com o público civil.

Para atriz, 'humor é ferramenta política'
 outra, como olham para a câmera e até quando soltam uma piada.

Não é o caso de Tatá Werneck em "TOC: Transtornada Obsessiva Compulsiva", no qual interpreta a atriz Kika K.

Da Tatá que surgiu na MTV e agora atua na Globo, Kika herdou a capacidade de contar as histórias mais estranhas de um modo que todos acreditem. Mas a atriz diz ter medido os improvisos.

"Eu pensava que podia tentar fazer uma piada e tentar tornar o filme mais engraçado. Mas isso é a minha vaidade, e estaria fugindo totalmente da história que quero contar", afirma.

No longa, Kika é uma atriz bem-sucedida e onipresente em comerciais. Longe das telas, sua vida não anda bem. Está em um relacionamento abusivo e questiona a eterna busca pelo próximo papel que a manterá em evidência. Ou seja, ela tem uma vida "invejável", mas que não a agrada.

"As pessoas criam esse padrão de felicidade, de corpo, de autoestima, de casamento que é apenas para pessoas jurídicas, não para pessoas físicas", diz. "Esse meio não é real. Nada daquilo é palpável, é só uma ilusão", diz.

E a própria humorista sabe como é corresponder a expectativas. "Por fazer humor, sempre esperam que eu vá fazer uma gracinha. Quando o meu avô morreu, fui gravar o 'Tudo Pela Audiência' logo depois. Era um programa improvisado, em que eu dançava lambada com um anão. Eu estava com a dor profunda da perda, e as pessoas dizendo 'Tatá, você está desanimada hoje'", lembra.

De volta ao longa, Kika passa a ignorar a opinião alheia, termina com o namorado-galã e começa a sair com um livreiro. É o gancho para outra crítica: de como uma mulher é julgada ao sair e entrar em um relacionamento.

Também há espaço para mexer com o ego das estrelas. Tatá não se cansa de ouvir durante a história que não é bonita. E sobra até para Caio Castro, galã da Globo que nem faz parte do elenco, mas é estereotipado na alcunha de Caio Astro (Bruno Gagliasso).

"O humor tem essa capacidade de transformar, de instigar. É uma ferramenta política. E ele tem também uma autodefesa ao dizer que é piada", afirma.

TOC - TRANSTORNADA OBSESSIVA COMPULSIVA
DIREÇÃO: Paulinho Caruso e  Teodoro Poppovic
ELENCO: Tatá Werneck, Vera Holtz, Bruno Gagliasso, Luis Lobianco
PRODUÇÃO: Brasil, 2015, 14 anos
QUANDO: estreia nesta quinta (2)
AVALIAÇÃO: muito bom

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