
Nem todo herói morre de overdose. E nem foi Cazuza o único a deixar este mundo aos 32 anos. O intérprete João Petra de Barros (1914– 1948), um carioca da capital, de timbre parecido ao do grandiloquente Francisco Alves – foi apelidado – pelo radialista César Ladeira – como “a voz de 18 quilates” – também partiu precocemente, com essa mesma idade.
Ícone do rádio de seu tempo, as décadas de 1930 e 1940, o hoje esquecido cantor completaria seu centenário este ano – mais precisamente, no último dia 23 de junho. Infelizmente pouco festejado, João Petra foi sinônimo de farra e sucesso na época em que esteve na ativa.
Parceiro de boemia de Noel Rosa, teve o privilégio de gravar com nomes como Mário Lago, Ary Barroso, Ismael Silva, Orestes Barbosa, Custódio Mesquita e Peterpan. Ou mesmo um ainda iniciante Vinicius de Moraes, na música “Dor de uma Saudade”, e claro, o amigo da Vila, Noel. Uma dessas composições, “Até Amanhã”, foi entregue por Noel Rosa para João Petra como uma forma de fazer “pirraça” com Francisco Alves, cansado que estava o poeta da Vila de ver suas músicas sempre associadas ao mesmo nome.
“Linda Pequena”, a primeira versão da histórica “As Pastorinhas”, mais bem sucedida parceria de Noel e Braguinha, o João de Barro, foi lançada, e com sucesso, por João Petra, sendo bisada no rádio por cerca de dois anos até a definitiva versão, lançada por Silvio Caldas um ano após a morte de Noel Rosa (ocorrida em 4 de maio de 1937).
Fato este que prenunciou a derrocada da carreira e vida de João Petra, que em pouco tempo perdeu – e para a mesma doença, a tuberculose –, dois amigos do samba, Noel e Nílton Bastos (que se foi um pouco antes de Noel, em 1931).
Mas o pior estava por vir. No dia 22 de julho de 1946, João Petra foi atingido por uma caminhonete da Aeronáutica enquanto viajava no estribo de um bonde. As consequências – tanto físicas quanto emocionais – para o jovem cantor foram nada menos que desastrosas: apesar de todo o esforço dos médicos que o atenderam, ele acabou tendo uma perna amputada. Inconsolável, recebe o carinho e apoio de amigos, como as irmãs Carmen e
Aurora Miranda – lembrando que registrou, com a segunda, várias músicas. Ainda assim, não se anima. Após duas tentativas frustradas, João Petra consegue dar cabo de sua vida, no dia 11 de janeiro de 1948, aos tais 32 anos.
Mas para os ouvidos atentos, mesmo distante, a voz de 18 quilates, mesmo distante, ainda ecoa.