
Uma boa adaptação da obra do escritor inglês Nick Hornby passa pelo enfoque no lado assumidamente obsessivo e fracassado de seus protagonistas. É o que os tornam tão deliciosamente reais, mas é preciso que o cineasta encontre a chave correta para estampar a fina camada de humor que os envolve.
Talvez falte esse cuidado em “Altos e Baixos”, lançado em DVD, para evitar que a ótima história de Hornby caia numa espécie de graça britânica de exportação. O filme de Pascal Chaumeil acompanha quatro potenciais suicidas que se encontram no topo de um prédio no momento derradeiro, na véspera de Ano Novo.
Não se poderia esperar outra coisa no desenvolvimento dessa trama que a criação de uma relação entre eles, ainda que forçosa, transformada em terapia de grupo. A ironia destilada por Hornby está no começo de algo que se estabelece a partir do desejo de se pôr fim em todas as coisas. Ou seja, na própria existência.
Mas o filme tira pouco proveito dessa contradição, preferindo seguir um caminho que visualizamos com incômoda antecedência, pontuado pelo típico humor inglês.
Radiografia
A trilha seguida por Hornby é geralmente melodramática, mas o que se sobressai é a radiografia humana, em torno de um universo formado por adultos-crianças. Basta se lembrar do eterno adolescente vivido por Hugh Grant em “Um Grande Garoto” ou do nostálgico vendedor de vinis (John Cusack) de “Alta Fidelidade”.
Por mais que os protagonistas resolvam seus problemas, esse ingrediente interior permanece imutável, assimilado com um tom agridoce pela narrativa do escritor. Conflitos que deveriam estar presentes em Martin Sharp (Pierce Brosnan), que começa “Altos e Baixos” como narrador, justificando a sua decadência em todas as esferas.
O jornalista seria possivelmente o alter ego de Hornby, mas o filme o abandona até a completa diluição de suas angústias, encerrada como uma lamentável caricatura.