Último filme de Kiarostami é um belo testamento

Paulo Henrique Silva
Hoje em Dia - Belo Horizonte
Publicado em 01/11/2017 às 14:29.Atualizado em 02/11/2021 às 23:30.

Último filme do cineasta iraniano Abbas Kiarostami, falecido em julho do ano passado, “24 Frames” é um belo testamento de um dos maiores realizadores do cinema mundial, sintetizando neste trabalho a sua busca constante pelo o que é ordinário (e ao mesmo tempo extraordinário) da vida cotidiana.

Kiarostami sempre filmou com comedimento, a partir de personagens que nos cativam pelo o que têm de simples e comum, em histórias fortes travestidas de situações banais. 

Seu objetivo era chegar o mais perto possível do sentimento expresso em momentos de alegria, alívio, melancolia, arrependimento, dúvida e raiva.
Sem abrir mão, porém, do artifício, entendendo o cinema como falsa reprodução da realidade, Kiarostami promove em “24 Frames” uma intervenção sobre imagens em sua maioria bucólicas, em meio à natureza e aos animais, como se buscasse dar uma segunda chance para observarmos o que é o espetáculo da vida, já saturado pelo nosso frenesi.

Durante alguns minutos, com uma câmera fixa, ele foca cenas aparentemente sem muita ação, um teste para os espectadores mais impacientes. Para quem se dispuser a mergulhar nestas imagens, o diretor oferece a tentativa de ressignificação, de retomada do valor, a aspectos tão elementares como o céu, o mar, a vida animal e o ar que respiramos.

Ele muda as cores, inclui chuva ou neve, funde imagens de vacas pastando com um mar ao fundo, entre outros recursos. Em todas as 24 sequências, Kiarostami estabelece uma leve narrativa, um pequeno movimento em direção ao congraçamento do ciclo da vida, mesmo quando uma ave é abatida no ar por um tiro.

O homem geralmente surge a partir do barulho de uma arma, como o maior obstáculo à harmonia estampida no brincar de dois cavalos ou no namoro entre os leões. A sequência que mais se aproxima de Kiarostami é aquele em que, de um carro, alguém abaixo o vidro e observa longamente o cenário à sua frente. Carros são elementos importantes na filmografia de Kiarostami. Em seu interior boa parte das narrativas avançou em sintonia com o movimento dos veículos. 

Em “24 Frames”, o que está dentro já não é o mais importante, como se o diretor se desligasse, em seu adeus, das questões humanas para se dissipar em meio à natureza.

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