
Assim, do nada, o “Hino Nacional do Brasil” capturou a atenção da coreógrafa e dançarina Dudude Herrmann, em um dia qualquer. “Distraidamente me ative ao hino, comecei a cantá-lo. Aí eu vi todos estes futuros, esta riqueza que está em sua letra e falei ‘Gente, preciso falar sobre isso!’. Me veio esta coisa do amor à pátria, da beleza do país, aquele poema do Manoel Bandeira que diz ‘Não verá nenhum país como esse, olha este céu, olha este mar’”, relembra. Esta é a semente de “Sublime Travessia”, espetáculo que, através da dança, pretende “atravessar e ser atravessado” pelo Brasil, como a artista diz, de norte a sul, de leste a oeste, tendo na subjetividade seu lugar de expressão.
Além do hino, o fato de a artista estar, desde 2011, levando seu espetáculo anterior, “A Projetista”, por todo o país, a fez pensar na experiência de ter nascido aqui, e seus alarmes frente à destruição de rios, montanhas, florestas, gentes. “Esse Brasil de riqueza e de pobreza, de potência e de miséria. Aí volto ao hino e me pergunto: onde estamos? Este governo governa para um bem comum? Qual o interesse real em uma educação de avanços, de consolidação de acessos, de amor para as crianças, para um futuro existir?”.
Mas, para além das perspectivas sombrias, das “tristezas infinitas”, Dudude dança uma travessia de “dignidade, de ética, de alegrias” também. Aí entra a expectativa de sublimar estas questões através da arte: “O que posso fazer diante deste caos?”, indaga. Sua resposta é sua prática: dançar. “A dança é uma linguagem boa para pensar em tudo isso. Estamos falando de movimento, daquele corpo brasileiro que se vira, que é impermanente. Não é a toa que somos a terra do samba”, acredita.
SINGULAR
Nesta direção, ela pensa em um corpo “desnomeado, que não tem um dedo apontado pra sua cara”, que gira distante das polarizações que corroem parte do pensamento crítico sobre o Brasil hoje e por vezes, tomam para si signos como o próprio hino, as cores da bandeira... “Esquece isso”, resume Dudude. “Fiz questão de desviar destes momentos de acusação. Somos todos nós em conjunto. Não é partidário, não é político. O hino me serve como estímulo, mas para pensar em todos, para um bem comum. Sou mais um, somos uma multidão de cada um”, diz, poeticamente, sobre a potência da singularidade.
A trilha sonora, de Natalia Mallo, é propositalmente uma composição remendada, diversa de sons originários de uma cultura popular que ultrapassa nossos tempos, dando a sustentação necessária. A proposta é, assim, ativar o imaginário do trabalho e fazer com que o espectador atravesse junto e seja cúmplice desta travessia. “Fiz questão de uma trilha bem suja, cheia de ruídos, entradas, sobreposições e misturas”, diz a artista. “Algo que remeta a não poder ficar muito tempo em um só lugar, ligado à alterações, adaptações”.Ou seja, que tenha o ritmo de um certo país: “O Brasil é este espaço, que não parece ter tempo de se arrumar, onde poucas coisas se estabelecem e de uma hora para a outra muda tudo”, diz.
Serviço: “Sublime Travessia”, de sexta à domingo no Teatro Francisco Nunes (Av. Afonso Pena s/n – Parque Municipal). Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$10