‘Um Limite Entre Nós’ fala de família, valores e perdão

Paulo Henrique Silva
phenrique@hojeemdia.com.br
Publicado em 01/03/2017 às 16:03.Atualizado em 16/11/2021 às 00:46.

Com um elenco totalmente formado por negros, surge como uma consequência natural relacionar a história de “Um Limite Entre Nós”, cartaz a partir de hoje nos cinemas, à questão racial. Ela está presente, sem dúvida, mas a narrativa conduzida por Denzel Washington, também protagonista, possui um arco mais amplo, abarcando família, valores e perdão.

E essa real hierarquia dos temas é mais facilmente perceptível se trocarmos a palavra “negro” por “pobre” ou qualquer outro personagem de injustiça social. A preocupação racial permeia as relações de Troy Maxson e sua família, na maneira, por exemplo, como ele alerta seus filhos para se desdobrarem mais que qualquer branco, mas o que importa ao filme é o microcosmo familiar.

Certamente o fato de não ter conseguido se sobressair como jogador de beisebol, por ser negro, faz de Troy um homem mais amargo, autoritário e beberrão, mas o que interessa em “Um Limite Entre Nós” é como ele transfere essa carga para quem está próximo, criando as cercas (fences, título em inglês) que dividem sua família, como um Jake LaMotta, o boxeador temperamental de “Touro Indomável”. 

A narrativa o leva à condição de vilão, principalmente quando ele se permite ao erro, enquanto não perdoa as falhas dos outros, e ao fato de abusar do poder, sempre dizendo que é a pessoa quem mantém a casa, crendo assim que pode decidir o que quiser – como não deixar que o filho mais novo pratique esportes, mesmo tendo ele aptidão, para ajudar em casa e trabalhar.

Três atos
Baseado numa peça teatral, o longa tem três atos bastante claros. Um primeiro em que se constrói um protagonista eloquente e difícil de ser dobrado, brilhantemente interpretado por Denzel. No segundo, a injustiça sofrida pelo filho ganha relevância, num aguardado embate entre os dois. No terceiro, é Viola Davis, no papel da esposa e mãe, quem se ilumina, rompendo com as cercas construídas.

Mais do que a questão racial, o filme nos envolve principalmente na forma como o elemento feminino se torna exemplo de união e tolerância. Não só pela mulher que nos faz ver um outro lado de Troy como também pela criança sorridente que quebra barreiras. Essa costura interior é o que o filme tem de mais forte, com nenhum personagem de fora invadindo esse microcosmo, com exceção do amigo de Troy.

Falta de ritmo
O problema de “Um Limite Entre Nós” é não conseguir se desvencilhar do ranço teatral, exibindo longos diálogos (alguns, quase monólogos de Denzel), especialmente na primeira metade, e um trabalho de câmera pouco inspirado, calcado apenas em engrandecer a performance do elenco.

A falta de ritmo também põe a perder os instantes finais, que acabam se tornando melodramáticos.

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