Um tímido e um sessentão à procura

Elemara Duarte - Hoje em Dia
Publicado em 04/02/2014 às 07:13.Atualizado em 20/11/2021 às 15:47.
 (Arquivo Pessoal)
(Arquivo Pessoal)
Angola é aquele país que se você esticar bem a imaginação, de algum ponto do litoral brasileiro, é capaz de identificá-lo para além do oceano. Alegorias à parte, vem de lá “O Tímido e as Mulheres” (Editora Leya). O romance foi escrito por um assumido leitor de Drummond e de Guimarães Rosa, o angolano Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, o Pepetela.
 
Amores impossíveis parecem um ímã para quem é desajeitado nas questões do coração. Assim em “O Tímido e as Mulheres”. Nele, o tímido Heitor é um escritor que ocupa o terceiro vértice de um triângulo amoroso. Nos demais estão a radialista Marisa e o marido dela, que se locomove em uma cadeira de rodas.
 
O cenário onde a trama acontece? Aquele mesmo que você teria vislumbrado. Atualize: Angola vem de uma independência recentíssima de Portugal, conquistada há menos de 40 anos, e de uma guerra civil. Então, haja assunto para o livro.
 
Pepetela, 72 anos, diz que a ideia para o livro surgiu da recordação de um bolero argentino. “Sonhei com ela, e todo o dia a canção não me saía da cabeça. Comecei então a compor um personagem ligado à canção, Marisa. O resto veio por acréscimo”.
 
Que nome é esse?
 
Pepetela significa Pestana, sobrenome do escritor em língua Kimbundu, do norte de Angola. “Foram os guerrilheiros que ‘mo’ deram quando combatíamos pela Independência”, explica ao Hoje em Dia. Atualmente, o sociólogo e ex-professor tem mais de 20 livros publicados. Boa parte deles com a curiosa alcunha.
 
No lançamento, Pepetela descreve, com fino humor e texto musicado por frases curtas, o que vê no seu atual país. Uma oportunidade para comprovar aquele tão falado “poder” dos livros para transportar você, leitor viajante, a outros mundos.
 
Mas o que mudou em Angola depois da independência? “Temos uma nação e isso muda tudo. Em termos sociais, houve uma revolução profunda, novas classes apareceram e outras tomaram o poder”, resume.
 
Em um dos passeios da radialista com o marido na trama, esta nova fase é evidente. “Iam para os condomínios, do que passou a chamar Luanda-Sul, onde os ricaços viviam ao lado de funcionários importantes e de declarados vigaristas bem-sucedidos e habituais nas colunas sociais”. 
 
Qualquer semelhança com o lado de cá do Atlântico não passa de mera coincidência.ado este que o angolano conhece bastante. “Estive no Brasil mais de vinte vezes. E algumas em Minas”, conta. 
 
Pepetela confessa, no entanto, que para além de Ouro Preto e ‘seu’ Aleijadinho e de Drummond, não conhece muita coisa. “Não sei até que ponto se pode considerar Guimarães Rosa mineiro. Como Drummond, ele ultrapassa todos os espaços”, avalia o autor, que também revela adorar comida mineira. “É muito parecida com a tradicional de Benguela, minha terra natal, que se vai perdendo com as velhas famílias”, lamenta.
 
"Príncipe encantado da terceira idade" encontra o amor
 
Tímidos ou entregues ao ostracismo que a idade conduz. O segundo caso é o ponto de inspiração para a escritora Hilma Wolitzer em seu “Um Homem Disponível” (Editora Saraiva – Selo Benvirá), também estacionando nas livrarias.
 
Sessentão, viúvo, calvo, e atraente, culto e gentil. Assim é Edward Schuyler, o personagem principal do livro – quase um príncipe encantado da terceira idade. Por causa de tantos atributos é que os filhos dele, vendo-o na solidão, colocam anúncio em revista para procurar uma namorada para o pai.
 
O Tédio
 
Assim, enquanto passava a ferro a própria camisa mais velha e de algodão, na sala da casa, em uma tarde de sábado, o personagem recebe o primeiro telefonema.
 
Começa a partir desse ponto a viagem pelo interior do personagem. Também abre-se para ele uma deliciosa esperança de que a “vida é para ser vivida” e de que “a morte é para quem morre”. Mas “Ed”, coitado, não é como aqueles da lista dos badalados e pró-ativos sessentões da mídia: Antonio Fagundes, Richard Gere, entre outros... Ed, como Heitor do livro acima é um tímido. E para os tímidos e demais “desajeitados do amor”, tudo é mais complicado.
 
Entenda. O personagem está longe de sentir-se preparado para voltar para a “pista” e reabrir o seu coração enlutado, por causa de sua amada e doce “Bee” – isso mesmo, “abelha”, traduzido do inglês. 
 
No entanto, quando ele se vê diante de tantas cartas, telefonemas e convites de mulheres desimpedidas, ele encara a realidade e, como um ciclista aposentado, relembra rapidinho como era gostoso pedalar. E pensa, enfim: há muitas mulheres solteiras, inteligentes e interessantes por aí, mas um homem gentil e livre é mais difícil encontrar. Ai, ai... 
 
Dividido entre sua lealdade à memória da esposa e seu desejo crescente por uma nova relação amorosa, será que Edward conseguirá ser um homem feliz novamente? Será? Pelo menos, uma boa análise para descobrir o sentido da vida, Ed terá. Este sentido que todos nós devíamos sempre renovar.
Compartilhar
Ediminas S/A Jornal Hoje em Dia.© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por