“Uma Verdade Mais Inconveniente” traz Al Gore de volta para o cinema

Paulo Henrique Silva
phenrique@hojeemdia.com.br
Publicado em 24/10/2017 às 16:33.Atualizado em 02/11/2021 às 23:22.
 (divulgação)
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SÃO PAULO - Não é só o Brasil que vive à mercê do lobby das grandes empresas. No filme “Uma Verdade Mais Inconveniente”, em exibição na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e previsto para entrar em circuito comercial em 9 de novembro, o vice-presidente (durante o governo de Bill Clinton) Al Gore deixa claro que uma das razões para o aquecimento global está na pressão de companhias petrolíferas sediadas nos Estados Unidos, contrárias às propostas de redução de emissão de carbono.

Gore, que lançou há dez anos “Uma Verdade Inconveniente”, ganhador do Oscar de melhor documentário, assume um pouco o papel do cineasta Michael Moore em filmes como “Tiros em Columbine” e “Fahrenheit 11/9”. Menos sarcástico e atrevido, o político nitidamente põe o Partido Democrata como solução para problemas ambientais, fazendo dos republicanos os vilões da causa, para quem o investimento em fontes renováveis representaria em diminuição do crescimento econômico.

Como Moore, Gore é o grande protagonista, visitando lugares que comprovam a sua tese de uma qualidade de vida cada vez pior no futuro, fortemente escorada em pesquisas científicas. Ele vai da Groelândia, onde as geleiras estão derretendo de forma acelerada, a Paris, onde teve participação ativa na costura de um acordo histórico durante a Conferência de Clima da ONU, em 2015, ajudando a convencer a Índia a aderir o pacto para conter os efeitos do aquecimento global.

O filme dirigido por Bonni Cohen e Jon Shenk é didático na maneira como expõe a problemática, recorrendo principalmente à fala contagiante do político ativista, mas escorrega justamente em não saber dar o peso adequado à participação de Gore, que surge muitas vezes como um candidato. A sensação é de um grande lamento pelo fato de ele não ter sido eleito em 2000 como presidente dos Estados Unidos, perdendo para George W. Bush numa disputa decidida nos tribunais.

Além de uma abordagem que o mostra como um homem de valores, o documentário reforça o discurso político de Gore, em que o país tem que estar na linha de frente das decisões mundiais. A China passar à frente dos Estados Unidos no quesito ambiental se apresenta como um equívoco, alimentando uma disputa pueril entre eles para saber quem é o melhor. É igual aos filmes de Hollywood, em que tudo passa pelo crivo norte-americano, em especial a salvação da Terra.

Al Gore seria esse típico herói de cinema. Quando Paris sofre os ataques terroristas, pouco antes da convenção ambiental, ele imediatamente se apresenta como um representante de seu país na manifestação de pesar pela dor dos franceses. Os movimentos seguintes validam esse discurso de heroísmo do filme, quando o ativista participa ativamente para a ratificação do documento que salvará o planeta do calor exagerado, dos desastres naturais e das doenças tropicais.

O grande embate passa a ser com o presidente Donald Trump, que recentemente tirou os EUA da lista dos países signatários do acordo de Paris. Gore é mostrado entrando no “Trump Tower”, um dos prédios do magnata que vira símbolo da fortaleza criada contra os interesses mundiais, repetindo assim o mesmo enfrentamento que teve com outro republicano (Bush filho). Um gancho evidente para uma possível terceira parte de “Uma Verdade Inconveniente”.

(*) O repórter viajou a convite da organização da Mostra

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