
Minas Gerais é um dos cinco estados que recebem um lançamento que vai fazer os apreciadores da boa música tremerem: o documentário “Cauby – Começaria Tudo Outra Vez”, de Nelson Hoineff. O longa (confira roteiro, à página 30) discorre sobre a trajetória do grande intérprete, que hoje contabiliza 84 anos de ricas experiências (leia, na página ao lado, trechos de uma entrevista com o diretor).
Cauby, vamos combinar, é único. Ou melhor dizendo, “quase” único... Mineiro de Juiz de Fora, mas radicado em Campinas (SP), o cantor Marcio Valle emula o mito há nada menos que 35 anos. E com muitos preciosismos: peruca de fartos cachos e blazer brilhante fazem parte de sua vida desde que se apresentou no programa “Máquina da Fama”, no SBT.
“Só não tenho as ‘macacas-de-auditório’. Até agora ninguém quis rasgar a minha roupa”, brinca ele, sobre as fãs histéricas de Cauby, nos anos 1950. Hoje, Valle, aos 67 anos, é aposentado da área de logística e dedica-se integralmente a uma paixão que teve início na adolescência. “Aos 16, uma tia, cantora, já dizia que meu timbre era igual ao dele. Estreei com ela em uma orquestra, em bailes, com as músicas do Cauby e de outros do rádio”.
A voz? “perfeita”
Márcio Vale já cantou três vezes com Cauby. A última, no próprio programa do SBT – mas, brevemente, um trechinho de “Conceição”, durante a entrevista, com os dois em um bar. “Ele só estava com alguma dificuldade para andar. Mas a voz... Perfeita!”
O cover diz que Cauby abriu uma porta, ao adotar um jeito mais informal. “Os outros cantavam mais ‘parados’. Tanto que muitos não emplacaram”. Marcio Valle está lançando o CD “Músicas Inesquecíveis”, no qual há duas gravações do repertório de Cauby: “Conceição” e “Bastidores”. O disco está à venda no Facebook de Valle.
“Sou fã mesmo. Estudo muito a obra dele para levar ao palco, mas também ouço sempre e por prazer. Meu filho mais novo, de 23 anos, também gosta – do Cauby e do pai cantando. Ele se emociona”, afiança.
‘Cauby foi a pessoa mais difícil que já entrevistei’
No documentário “Caro Francis”, Nelson Hoineff enfocou Paulo Francis, polêmico jornalista – falecido em 1997 – que foi chamado de tudo, de grosso a reacionário e racista. Mas depois de acompanhar de perto a rotina de Cauby Peixoto, ele não tem dúvida: “De todas as pessoas que já entrevistei, seguramente foi a mais difícil”, registra.
O cantor não se abria, especialmente em relação a temas polêmicos e que sempre gravitaram a carreira de Cauby, como a sua sexualidade. “Eu sempre perguntava sobre os amores e ele respondia da mesma forma, dizendo que eram as suas fãs”, lembra Hoineff, diretor de “Cauby – Começaria Tudo Outra Vez”.
Numa de suas últimas tentativas, Cauby, enfim, falou. “Estava muito divertido e revelou que, quando era menino, brincava com o pintinho dos outros garotos e que gozava no mato”, destaca. O que não quer dizer que o artista tenha cravado sua opção sexual no documentário, que será exibido nesse sábado (30) e terça no BH Shopping.
Sem sensacionalismo
“Cauby usa o amor heterossexual como um padrão de perfeição”, analisa Hoineff. Lembra que, na década de 50, quando a homossexualidade era um tabu, chamavam o cantor de Caubicha. “Ele fala de uma época em que foi para os Estados Unidos e se interessou pelos bares frequentados por homossexuais, que ele define como os bares deles”.
Apesar de ter, nas aventuras amorosas do biografado, um elemento revelador, o documentário não se apropria dele com sensacionalismo. Hoineff parece mais interessado no homem frágil, que não fez mais nada na vida a não ser cantar. Como ele assinala, o cantor de “Conceição” é um artista 100% de seu dia.
Paralisia
“Ele não faz absolutamente nada, não tem vida social nenhuma. Não vai ao cinema, a um show... Vive para a arte dele. Na verdade, é o último expoente de um tipo de intérprete que já não existe mais”, destaca o diretor.
A cena mais marcante, nesse sentido, é quando Cauby surge paralisado no palco, aparentemente sem condições de soltar a voz no show.
“Esse Cauby na coxia surge completamente perdido, não sabendo para onde olhar. Faltando cinco segundos para a cortina se abrir, a gente diz que ele não irá conseguir. Com três segundos, é quase um pânico, até que, ao abrirem a cortina, é um outro personagem que está lá, transformando-se completamente”, registra.
Renovação de fãs
Com poucos depoimentos (Maria Bethânia dá a sua contribuição, afirmando que Cauby ensina os cantores do mundo como se deve usar a voz), “Começaria Tudo Outra Vez” também acompanha um jovem admirador de 15 anos, como uma forma de mostrar que “é uma pessoa que não envelhece, por conta das inúmeras cirurgias plásticas que faz e da renovação de seus fãs”.