
O espectador demora um pouco a entender a razão de o fotógrafo policial Fernando estar reorganizando a casa, mexendo nas roupas da mulher. Essa inquietação já nos põe no ambiente de suspense proposto por “Para Minha Amada Morta”, uma das estreias de hoje nos cinemas.
Embora os primeiros movimentos apontem para um típico filme de vingança, após Fernando descobrir que a esposa recém-falecida o traía, ao encontrar algumas fitas de vídeo, a estreia em longa-metragem de ficção de Aly Muritiba está longe de recair nos clichês do gênero.
Está mais para uma obra sobre o perdão, numa primeira leitura, e também sobre o desconhecimento a respeito daqueles com quem convivemos por anos. Pode parecer estranho, a princípio, que a mulher não possa se defender. O que sabemos dela é através do amante.
O “outro” é um ex-presidiário, um evangélico que agora trabalha duro para sustentar a família, que também foi vítima, seduzido por ela.
Mas esse dado, em certo momento, acaba sendo secundário, com Fernando mais interessado em saber o que a fez se envolver com outra pessoa.
Em dado instante, os dois parecem um espelho invertido. O outrora pai de família agora se vê friamente instalado na casa da família pobre, com a possibilidade de colocá-la de cabeça para baixo, ao melhor estilo do psicopata Max Cady (Robert De Niro) em “Cabo do Medo”.
Fantasmas
Enquanto um tenta se livrar de seus pecados por meio da religião, Fernando encara seus fantasmas ocupando o mesmo lugar do traidor, flertando com filha e esposa. O suspense permanece na maneira como o fotógrafo tem o controle da situação, deixando os demais (e o espectador) à sua mercê.
É como o vidro quebrado de uma janela em que vemos os amantes na cama. Ou a câmera em que ela grava a transa.
São apenas pedaços, trechos, que, dentro de sua dor, Fernando precisa juntar para refazer a sua vida. Para ele, o fato de ter a chance de destruir uma família já teria sido suficiente. Sensação que impregna o suspense do filme.